31.8.10

Baboso e voraz



Drosophyllum lusitanicum (L.) Link

A arte da era vitoriana prezava o horror romanceado, criando um cenário de arquitectura gótica, decadente como o fim do século XIX, onde o fascínio pelo terror se nutriu até de plantas carnívoras, criaturas que possuem movimento e matam animais - que, na imaginação adubada pela literatura de Stevenson, Wilde, Dickens ou Poe, podem ser inocentes criancinhas. O interesse de Charles Darwin por esta família de plantas é consentâneo com este deslumbramento pelo bizarro que o levou a investigar os mecanismos de atracção, captura e digestão de presas, em particular da erva-pinheira-orvalhada.

Desta espécie, Darwin recebeu, em 1869, exemplares enviados por um amador de botânica portuense, William Tait, e colhidos na serra de Santa Justa. Darwin teria hoje - como nós, apesar do GPS - dificuldade em a encontrar pois, em Valongo, restam poucas populações, todas isoladas e com escasso número de indivíduos. Além da invasão de eucaliptos e acácias, que roubam sol e modificam o carácter do solo, e do uso distinto que a população local faz da terra, persiste a circulação endemoninhada de jovens motorizados, levantando nuvens sufocantes de pó, que atropelam ou asfixiam as plantas à beira dos estradões - justamente os locais abertos e ensolarados que ali sobram e onde a Drosophyllum poderia germinar. Em Portugal há outras paragens, a sul do Mondego e quase sempre perto da costa (a excepção é a serra de São Mamede, perto de Portalegre), onde esta carnívora é mais abundante, e talvez por isso ela não conste, como deveria, de nenhuma lista de plantas ameaçadas nem de nenhum programa de conservação da biodiversidade. Mas o número de exemplares registados no país é suficientemente baixo para que a D. lusitanicum seja considerada rara e em perigo de extinção na terra lusa.

Esta planta é tradicionalmente incluída na família da Drosera e, de facto, o mais notório em ambas é a cobertura das folhas por glândulas pedunculadas com gotas de líquido doce, brilhante e avermelhado. São estruturas cuja função essencial é atrair os insectos, agarrá-los e enviar ao resto da planta a boa notícia. Embora também possam segregar enzimas digestivas, na Drosophyllum esse papel é atribuído prioritariamente a outras glândulas, sésseis e verdes, que salpicam a superfície das folhas. Para segurança da planta e economia de meios, estas glândulas com formato de crateras só trabalham se comandadas pelas outras-tipo-cogumelo; e, depois de feita a digestão do bicho, cabe-lhes absorver as componentes nutritivas relevantes.

Contudo, recentemente alguns botânicos repararam em outras diferenças, na morfologia e no comportamento, entre os géneros Drosera e Drosophyllum. As folhas da Drosophyllum são perfumadas (como o mel), lineares, circinadas e - ao contrário das da Drosera que se fecham para os tentáculos matarem e digerirem rapidamente o animal - não se movem quando a presa lhes toca. Ironicamente, o movimento continua a pertencer à presa: depois de receber as primeiras gotas de cola, o insecto ainda não imobilizado, mas aflito e mais pesado, desce ao longo da folha, levando pelo caminho novas camadas de visco, podendo progredir até à base da planta, onde várias folhas, agrupadas em densa roseta, participam do banquete. Além disso, é a única planta carnívora que exige lugares secos, em pinhais ou rochedos. Resultado: os cientistas fecharam-se no laboratório e descobriram que, geneticamente, a Drosophyllum não é, como se julgava, parente próxima da Drosera. Propõem agora que o slobbering pine seja a única espécie do único género da família Drosophyllaceae.

O dewy pine forma um caule lenhoso e, com a idade, pode atingir ou ultrapassar os 60 cm de altura, mas os onze exemplares que vimos não iriam além dos 20 ou 30 cm (sem contar com as hastes florais). Não chegámos a tempo de fotografar a flor do mal; mas sabemos que desabrocha entre Março e Julho e que é amarela, com pétalas de cerca de 3 cm de diâmetro e cálice onde também há glândulas assassinas. As cápsulas estavam cheias de sementes escuras, com formato de pêra e casca rugosa que, esperemos, serão espalhadas pelo vento e não roubadas para venda na internet.

30.8.10

Caldo de lentilhas



Callitriche stagnalis Scop. - Mindelo, Vila do Conde

As plantas que ocorrem em muitos países mas que, em cada um deles, ocupam apenas alguns raros nichos são causa de perplexidade. Pensemos por exemplo em plantas aquáticas como esta lentilha-de-água (Callitriche stagnalis): existe em toda a Europa, mas em Portugal a sua presença é escassa e pontual. Um ribeiro aqui, um lago acolá: de facto ela não surge na maioria dos locais onde poderia ter-se instalado. (Muito mais abundantes são as plantas do género Lemna, também chamadas lentilhas-de-água, que se distinguem da Callitriche por serem flutuantes e desprovidas de caule.) Como aparecem estas populações em lugares tão distantes uns dos outros? Dá vontade de imaginar que o grande dilúvio afinal não é um mito, e que houve um tempo em que as águas cobriam os continentes, salvando-se apenas os cumes mais altos. Quando o nível das águas desceu e Noé pôde finalmente pisar terra firme, as plantas de vocação aquática teriam ficado confinadas a uns poucos lagos e rios. A ideia é irresistível mas disparatada, até porque uma planta como a Callitriche stagnalis, precisando de se enraizar, não pode viver em águas profundas. Não é absurdo, porém, pensar que a acção humana, ao destruir muitos habitats propícios, terá levado a essa fragmentação das populações.

A Callitriche stagnalis, que prefere águas paradas ou de curso lento, é formada por caules esguios, de 10 a 100 cm de comprimento. À tona da água ficam só as pequeninas rosetas de folhas ovais. Embora sejam de difícil observação, por serem minúsculas e se esconderem na base das folhas, a planta também dá flores, ao que consta verdes e sem pétalas. Quando as águas baixam no Verão, é possível encontrar a planta nas margens lamacentas de ribeiros e charcos.

Para compensar o seu retrocesso na Europa (pelo menos em Portugal), a Callitriche stagnalis emigrou para os EUA, onde se deu tão bem que mereceu o estatuto de planta daninha. Haveria ainda a comentar o absurdo de a terem colocado na família Plantaginaceae (mais uma prova do desvario que aflige a ciência botânica), mas isso (recorrendo a uma expressão popular bem a propósito) seria chover no molhado.

28.8.10

Lezíria


Lysichiton americanus Hultén & H. St. John

     São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n'água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto. 

Cantam o Norte e o Sul duma só vez. Cantam baixo, e parece Que na raiz humana dos seus pés Qualquer coisa apodrece.

Miguel Torga (Diário I, 1941)

27.8.10

De égua para cavalo



Equisetum arvense L. - Sandwich Bay (Inglaterra) e lagoa de Mira (Portugal)

O rabo-de-cavalo (Equisetum arvense) surge como complemento natural do rabo-de-égua (Hippuris vulgaris). Mesmo que a analogia com o apêndice traseiro dos ditos animais seja meio forçada, não há dúvida de que as duas plantas são parecidas. Ambas parecem ser formadas por hastes verdes em que a folhagem se distribui ordenadamente por patamares. Mas as fotos mais acima suscitam estranheza, pois as hastes que aí se vêem não são verdes nem aparentam ter folhas. É legítimo perguntarmo-nos se as fotos de baixo são da mesma planta.

Vamos por partes. A semelhança entre o Equisetum e o Hippuris é puramente superficial. Como único sobrevivente da classe Equisetopsida, que foi abundante e variada no Paleozóico (entre 540 e 245 milhões de anos atrás), o género Equisetum, que inclui cerca de trinta espécies, é considerado um fóssil vivo. As plantas que o integram têm um método de reprodução primitivo, decalcado do dos fetos, que já antes aqui explicámos. Por contraste, o Hippuris é uma angiosperma - ou seja, uma planta moderna, com flor, coisa que só terá sido inventada há uns 140 milhões de anos.

E depois há a questão das folhas. Aquilo que no Equisetum nos parecem ser folhas são na verdade raminhos verdes, capazes de fotossíntese; e por vezes esses raminhos são eles próprios ramificados. As verdadeiras folhas são as escamas triangulares castanhas que vemos ao longo do caule.

Falta explicar o duplo aspecto que a planta assume nas fotos. O Equisetum arvense é peculiar por ter dois tipos de frondes (por analogia com os fetos, chamamos frondes às hastes da planta): as frondes verdes e ramificadas, que são estéreis, e as frondes de um tom entre o bege e o rosa, sem clorofila, que são rematadas por um cone onde se agrupam os esporos reprodutores. Essas frondes férteis surgem no dealbar da Primavera, e só mais tarde é que as outras despontam.

Sucede que o laborioso processo reprodutivo que tão bem funciona nos fetos parece claudicar nos rabos-de-cavalo. De facto, o Equisetum é dotado de extensos rizomas subterrâneos e, para se expandir, vale-se quase exclusivamente da reprodução vegetativa. Se for plantado num jardim pode facilmente converter-se em praga, mas tem grande dificuldade em expandir-se para locais novos. Em Portugal, onde o tipo de hábito ripícola que o favorece está em franca regressão, as populações espontâneas têm-se tornado cada vez mais raras.

26.8.10

Pinga-morte



Pinguicula lusitanica L.

aqui apareceram plantas que aprisionam polinizadores para assegurar a sua colaboração, mas nenhuma delas os mata ou, se isso acontece por acidente, possui mecanismo que lhe permita beneficiar dos nutrientes das vítimas. Não são portanto insectívoras. Outras há que sabem matar predadores, ou que só consomem animais depois de estes terem sido processados por bactérias. Também estas não encaixam na classe das plantas carnívoras: essas têm de possuir meios para a captura, morte e consumo das presas, desenvolvendo-se à custa desse alimento. É certo que nem sempre a natureza se conforma ao espartilho da ciência, mas seria imprudente alterar sem motivo as definições que a erudição nos propõe.

Todas as plantas carnívoras conhecidas usam as folhas para caçar, mas diferem muito no tipo de armadilha. O estratagema mais simples parece ser o do género Pinguicula (o termo latino pinguis significa gorduroso, pegajoso). As folhas são como fitas com adesivo onde animais pequenos, sobretudo mosquitos atraídos pelo (para eles) irresistível aroma pestilento a fungo, se colam sem apelo. A superfície foliar tem glândulas que segregam gotas de um visco brilhante - o orvalho de que falámos há dias - e que são pedunculadas, embora sem o alcance dos tentáculos da Drosera, para impedir que a folha abafe com a mucilagem enquanto espera pela presa. Ao lado destas, notam-se outras glândulas sésseis (como crateras lunares vistas da Terra) que se mantêm secas até que um candidato a jantar toque na folha; nessa altura, largam um líquido rico em enzimas e ácidos digestivos que essencialmente afoga o animal e permite à folha digeri-lo externamente, assimilando apenas as componentes que lhe interessam.

Percebe-se agora a vantagem de as folhas da Pinguicula terem as margens reviradas para dentro, como uma taça de onde o conteúdo não se derrama. Em algumas espécies, os bordos podem até mover-se lentamente para formar um tubo em que todo o conteúdo fica de molho, e garantindo que toda a folha participa na digestão. Naturalmente, neste processo, as folhas desgastam-se, mas a planta substitui regularmente as que se estragam.

Para que os polinizadores não sejam vítimas deste ardil, a Pinguicula cria hastes altas de flores com cores vistosas, cálice brilhante - um candeeiro sempre aceso - e um esporão conspícuo cheio de néctar perfumado.

Há cerca de cem espécies de vivazes do género Pinguicula, situando-se a maior diversidade no sul do México. Em Portugal há registo de duas, a P. lusitanica e a P. vulgaris L. A primeira prefere solos húmidos em regiões costeiras e quentes do oeste europeu, Mediterrâneo e noroeste de África e perde a roseta basal no período de dormência. A flor tem 5 a 9 mm de comprimento e possui, na garganta, uma aba que dificulta a auto-polinização.

[Foi tarefa morosa localizar a planta porque, ao contrário do que talvez as fotos insinuem, ela é muito pequenina; além disso, quase todos os pés tinham a roseta de folhas escondida por musgo ou folhedo. Mas depois de detectarmos a primeira percebemos que era mais fácil avistar as flores, e encontrámos muitas mais no mesmo local.]

A Pinguicula vulgaris L., que deveria, pelo nome, ser comum, gosta de escorrências em rochas e dos invernos frios da América do Norte, Europa e Ásia. Aos portugueses, exímios na destruição da natureza, resta uma única população na Serra do Gerês (cujo paradeiro a equipa do Dias com Árvores ainda desconhece).

25.8.10

Alfacinha do rio


Samolus valerandi L. - rio Coura, Caminha (fotos de M. M. F.)

É uma planta comum em estuários e outros ambientes húmidos e salobros. Há que procurá-la durante o Verão, quando floresce, pois de outro modo passa despercebida. As suas minúsculas flores brancas, levantadas num frágil cacho, são tudo quanto possui para nos chamar a atenção. Apesar das insistentes referências à ocorrência desta planta, só a conhecia de a ver mencionada em listas de espécies e representada em livros. Mas poderei chamar a isso conhecer?

Encontrei-a uma noite destas, agigantada, com flores do tamanho de punhos fechados, de um branco faiscante. Apesar de disforme, não hesitei em reconhecê-la: aqui estás, Samolus valerandi, até que enfim! Quando acordei, um único impulso me tomou, apesar do calor extremo do dia: procurá-la no sítio mais à mão, a junqueira do Coura próximo de Caminha, onde tinha andado em pleno Inverno a registar plantas adormecidas. Quase como no sonho, ali estava ela à minha espera, multiplicada numa pequena população em flor, enraizada na vasa e nas paredes do antigo valado que atravessa a junqueira, à sombra dos caniços e das austrálias. Só estando ali se percebe o que não vem nos livros: que aquele milagre de delicadeza é suficientemente firme para suportar duas vezes por dia a submersão pela água da maré (pode mesmo apreciar-se o efeito da tensão superficial da água, à medida que os cachos erectos vão sendo submersos). Um implacável vai-vem de água salobra liga esta humilde planta à força gravítica da Lua.

Creio que não foi um acaso que me levou até lá, embora não saiba bem o que foi. Antes de sair dali, uma restolhada súbita pôs-me alerta: viria alguém pelo valado fora, naquele sítio de tão difícil acesso? Uma pessoa? Um cão? Uma cabeça castanha espreitou do outro lado do tronco da árvore a que estava encostado: focinho escuro, longos bigodes, olhos salientes. Ali estava uma lontra a olhar tranquilamente para mim. Mergulhou, reapareceu, continuou a olhar para mim, mergulhou de novo e foi à sua vida.

Compreendi que por vezes a realidade pode ultrapassar certos sonhos. Na junqueira do Coura ainda está (quase) tudo por descobrir.


Manuel Miranda Fernandes
Agosto de 2010


Samolus valerandi L. - Mindelo, Vila do Conde

24.8.10

Orvalho fatal

Drosera rotundifolia L.

Sensata, esta herbácea perene hiberna quando o frio e a chuva assomam, desaparecendo dentro de um repolho pequenino de folhas (hibernáculo) que a sustenta mesmo quando submersa. Com o início dos dias amenos, este nó de vida ganha bolhas de ar que lhe permitem flutuar, desata-se e o ciclo recomeça. Por isso, depois de localizarmos o torrão húmido adequado - ela prefere água limpa -, houve que esperar pelo Verão para a admirarmos. Nesta altura é fácil detectar as rosetas avermelhadas da orvalhinha em margens de turfeiras ou pauis, e descobrir como vive.

Atordoada com o calor, se uma mosca avista as folhas (com cerca de 1 cm de diâmetro) desta Drosera, nota que elas estão fresquinhas, com gotas brilhantes que exalam um aroma açucarado, e não hesita. É nessa pressa, por não resistir à tentação, que o insecto se perde. Esta é uma planta insectívora e usa, nesse rocio diabólico feito de secreções de glândulas na extremidade de tentáculos, uma cola que aprisiona as patas dos incautos. Alguns destes, aflitos, debatem-se agitando as asas, e assim se condenam. Neste cenário de horror, consola-nos a compaixão da natureza: mal sentem a presença da vítima, os tentáculos empurram-na para o centro da folha-colher, esta enrola-se rapidamente para asfixiar a presa e a morte é rápida. Entretanto a folha produz enzimas para desfazer o animal, ingere a sopa e reabre-se pronta para levar outra colherada à boca. [Visco bizarro esse, que não impede as folhas de reabrirem.]

Não parece natural que uma planta recorra a estes métodos para se alimentar - desconfiança de quem é animal e come plantas. Não lhe chega a fotossíntese? E o que retira da terra? De facto, nos terrenos encharcados onde ela vegeta a água corrente leva os nutrientes (em particular azoto e fósforo) e a planta precisa de os procurar por outras vias. E a técnica que desenvolveu é um expediente que funciona bem num mundo que se originou no pecado. Tão eficiente que em algumas destas plantas se desliga a produção de outras enzimas, as que lhe permitiriam retirar mimos da terra caso os houvesse, e as raízes são incipientes, com a função única de absorver água, agarrar a planta à terra e propagá-la vegetativamente.

As flores hermafroditas são minúsculas, sem perfume ou néctar, isoladas ou em espigas - mas neste caso parece que só uma flor abre de cada vez -, e recorrem frequentemente à auto-fertilização. As hastes altas protegem os potenciais polinizadores (grupo distinto do das presas, claro) da armadilha na roseta basal e tornam o conjunto mais fácil de localizar.

O género Drosera conta com mais de 180 espécies, algumas cosmopolitas, a maioria da Austrália, exibindo estratégias argutas de adaptação a quase todos os habitats (excepção previsível do marinho, desértico ou gelado). A espécie da foto dá-se bem em camas de um musgo (Sphagnum sp., que surge em cima à direita) que acidifica o solo e absorve vorazmente os nutrientes disponíveis, dando vantagem à Drosera (que conta com outra fonte de alimento) na competição por aquele espaço. Na Europa há registo de apenas três espécies de sundew, além de alguns híbridos: D. rotundifolia (cada roseta tem cerca de 5 cm de diâmetro), D. intermedia (com folhas de 1 cm e hastes florais à altura das folhas) e D. anglica (antes D. longifolia L., nome recentemente recusado, apesar das regras de taxinomia, por ser ambíguo) com folhas longas, de 3 cm de comprimento, e hastes florais muito mais altas do que as folhas.

Há séculos que as raízes e flores da orvalhinha são usadas em antitússicos, licores e corantes, mais um motivo para o seu declínio. Na Europa informada é uma espécie protegida. E há uma International Carnivorous Plant Society que milita pela sua conservação.

23.8.10

Com um pé na água


Hippuris vulgaris L. - Lee Valley Regional Park, Inglaterra

O mês de Agosto mantém uma relação ambígua com a água. É o mês em que raramente chove, e em que a chuva, quando aparece, não é bem-vinda; mas é também o mês em que toda a gente vai a banhos. No mar, no rio ou na piscina, ou nas massagens de águas mornas em estâncias termais, quase nos transformamos em criaturas aquáticas. Vemos, pela secura progressiva dos campos, como o ciclo da água é também o ciclo da vida: quando a água falta, a vida esmorece. Mas é no mês em que menos água cai do céu que mais água consumimos: acreditamos que o desfalecimento da natureza é provisório e que em Setembro tudo se recompõe.

Não será pois um despropósito dedicar esta semana às plantas aquáticas. Algumas delas não serão propriamente aquáticas, mas higrófilas, vivendo nas margens de lagos e riachos ou em terrenos temporariamente encharcados. Há assim as que vivem rodeadas de água e as outras, cautelosas, que só lá põem um pé. Sendo essas plantas tão variadas e em tão grande número, talvez nos apeteça mostrar mais umas tantas na próxima semana.

Para inaugurar a série trazemos o Hippuris vulgaris, uma planta de ampla distribuição no hemisfério norte (Europa, Ásia e América) a que, por tradução do nome científico, podemos chamar rabo-de-égua (em inglês fica mare's tail). Presente no nordeste da Península Ibérica, é duvidoso que ocorra espontaneamente em Portugal. É uma planta que prefere águas paradas, com caules submersos de que brotam hastes erectas, de 20 a 60 cm de altura, enfeitadas a intervalos regulares com saiotes de folhas pontiagudas. As mínusculas manchas cor-de-rosa que se vêem acima desses verticilos (2.ª foto - clique para aumentar) são as flores, desprovidas de pétalas, que aparecem de Maio a Julho.

Os estudos genéticos que vêm revolucionando a sistemática botânica transferiram o Hippuris, que antes compunha sozinho a família Hippuridaceae, para a família Plantaginaceae. A nova organização familiar tenta agrupar as plantas de acordo com a sua árvore genealógica. Constatou-se, por exemplo, que a antiga família Scrophulariaceae era composta por várias linhagens de diferentes ascendências, o que ditou a migração de muitas plantas para as famílias Plantaginaceae e Orobanchaceae. Acontece que a família Plantaginaceae assim alargada tem um grau de variabilidade morfológica que muito escandalizaria os antigos naturalistas. A olho nu, que semelhanças pode o amador de botânica detectar entre o Hippuris, a Linaria e o Plantago? A natureza reinterpretada pela ciência tornou-se afinal mais confusa e mais ilegível.

1.8.10

Férias


Merendera montana (L.) Lange
[sinónimo: Merendera pyrenaica (Pourret) P. Fourn.]

Regressamos no dia 23 de Agosto.