30.4.10

Vestir a manta



Quercus faginea subsp. broteroi (Coutinho) A. Camus

Nas terras de Sicó é suave a ondulação dos montes, o que faz com que os carvalhais sejam bem diferentes daqueles que encontramos no noroeste do país. É também verdade que o carvalho é outro: num arroubo de nacionalismo até lhe chamamos carvalho-português, embora isso não o tenha impedido de se instalar igualmente em Espanha. O carvalho-roble nortenho (Quercus robur), por seu turno, é claramente internacional, sem que isso o faça menos português. Não serão pois razões patrióticas que nos farão preferir um carvalho ao outro. Ambos têm uma dignidade admirável que a idade só reforça. No que toca à beleza, o ponto forte do carvalho-roble é a cor luzidia da sua folhagem primaveril. Por contraste, as folhas do carvalho-português (ou carvalho-cerquinho) começam por ser pálidas e baças, ganhando vivacidade à medida que a Primavera amadurece. O primeiro estreia triunfalmente a sua manta nova; o segundo insinua-se devagarinho nos nossos sentidos. Digamos que o marcador regista um empate no final do prolongamento.

Os concelhos de Ansião e Alvaiázere albergam a maior mancha ibérica de carvalho-cerquinho. A rota do carvalho cerquinho, iniciativa da associação Terras de Sicó, estende-se por trinta quilómetros e permite caminhar um dia inteiro entre carvalhais quase ininterruptos. E, agora que é tempo de orquídeas, assinale-se que algumas delas (como a Neotinea maculata e a Cephalanthera longifolia) preferem a sombra protectora dos carvalhos à vegetação rala da crista dos montes.

O carvalhal que ilustra esta conversa, fotografado em Março e Abril deste ano, não está incluído na rota pedestre. Cercado por um olival e por campos de cultivo, terá uns quatro ou cinco hectares, e é uma amostra preciosa, fartamente sonorizada pelo canto dos pássaros, do muito que há de bom por terras de Sicó.

29.4.10

Taludismo duriense



Orchis mascula (L.) L.

Também há orquídeas no Douro, mas este floreio surpreendeu-nos porque as temos encontrado sobretudo em terrenos cársicos, e sabe-se como elas têm dificuldade em colonizar habitats recentes. Contudo, orquídeas na orla de estradas ou margens de terrenos de cultivo podem indicar torrões antigos recheados de bolbos que ali teriam existido antes da lavra intensiva, do pastoreio obstinado ou da fita de alcatrão que agora tão suavemente nos conduz até aos relictos.

O nome comum inglês desta espécie, early purple orchid, é inadequado por cá, mais favorecidos que somos de clima ameno e espécies de orquídeas, pois, antes dela, muitas outras florescem. Entre nós, é satirião-macho, expressão que, referindo-se à floração vigorosa ou aludindo à masculinidade dos tubérculos, também peca por excesso: satirião deriva do latim satyrion, e o antepositivo satyrus é nome de semideus lascivo, devasso e cínico.

Esta espécie, de inflorescência violácea, densa e sobranceira, que tem predilecção por prados mal cobertos por vegetação, não passa despercebida às abelhinhas recém-nascidas, ou ingénuas, que têm ainda de aprender a distinguir as fontes genuínas de néctar. No início da floração até rescende a mel, mas de facto não lhes oferece nada: o labelo tem um centro esbranquiçado e um desenho de pintas de cor púrpura a apontar o caminho até ao esporão onde, noutras flores que não intrujam, se descobrem potes de néctar. Neste cenário de negócio ambíguo, a frutificação é uma proeza que tem de ser devidamente explorada; e, por isso, os talos avantajados, com cápsulas púrpura recheadas de sementes (de 300 a 25 mil), permanecem conspícuos quase todo o Verão, disseminando cautelosamente os filhotes.

Quando uma destas sementes minúsculas e magras aterra, apressa-se a lançar uma raiz que a alimente. É que a bagagem leve (2-8 microgramas), que permite viajar rapidamente e para longe, impõe restrições nas reservas de nutrientes. Durante o Verão, o embrião depende inteiramente de fungos que, por sua vez, só sobrevivem à menor humidade se tiverem uma epiderme de raiz de orquídea para alugar. As folhas que surgirão mais tarde produzirão sustento mais apreciável, tanto que a planta fabrica dois tubérculos para armazenar as sobras e dispensa a cooperação dos fungos e das raízes.

28.4.10

O cardo é uma lição


Cirsium vulgare (Savi) Ten.

O Jardim Botânico do Porto, como outros jardins botânicos nacionais com muitas décadas ou até séculos de existência, não é lugar para se conhecer a flora portuguesa. Tais jardins foram moldados pelo coleccionismo oitocentista, mentalidade que só nas duas ou três últimas décadas do século XX começou a ser ultrapassada. Valorizavam-se as plantas raras trazidas de lugares remotos, ou os requintados híbridos que horticultores famosos produziam nos seus hortos. Seria absurdo acolher nesses aristocráticos canteiros a flora espontânea dos nossos montes. E, além das razões de gosto, havia a questão prática: para conhecer as plantas silvestres bastava passear pelo país. Coisa muito diferente era um jardim que tinha obrigação de nos seduzir pelo exotismo.

Dois dados vieram perturbar essa tranquila certeza. O primeiro foi a banalização do exótico. Se nem todos viajam, há muitos a fazê-lo, e em qualquer caso as imagens desses lugares outrora longínquos são acessíveis a toda a gente. Para quê recriar Singapura ou o Brasil no Porto se podemos facilmente ir conferir os originais? O segundo dado foi a consciência gradual de que aquilo que era desdenhado por ser abundante ameaçava tornar-se escasso. A natureza transformou-se e rarefez-se. Para chegarmos aos tais montes atravessamos uma muralha de auto-estradas; uma vez lá, constatamos que as acácias e os eucaliptos ocuparam, de modo avassalador, as áreas onde, noutros tempos, vegetavam as plantas que os nossos jardins botânicos desprezavam. O que é raro hoje é aquilo que costumava encontrar-se à nossa porta.

Devem então os jardins botânicos tradicionais ser refeitos à luz das preocupações e dos conhecimentos actuais? De modo nenhum: o seu valor histórico, patrimonial e ambiental é inestimável. Compreender a sua génese em nada os diminui; faz-nos apenas desejar que, além desses, houvesse nas nossas metrópoles outros jardins botânicos de índole diversa, mais representativos da nossa flora.

Que tem isto a ver com o cardo acima retratado? Embora tenhamos deparado com ele no Jardim Botânico do Porto, é óbvio que ninguém o plantou. De facto, a sua existência só foi possível porque os jardineiros - que são pouquíssimos e não têm mãos a medir - se descuidaram. Mas, enquanto não o arrancaram, ele ficou a reforçar o escasso contingente da flora nacional no Botânico, o que já é um feito assinalável.

Os géneros Cirsium e Carduus têm grandes parecenças, distinguindo-se essencialmente pela penugem (ou papilho) dos frutos, que nos Cirsium é ramificada e sedosa. O cardo-roxo (Cirsium vulgare) é uma planta bienal, típica de prados e de terrenos ruderais, que pode ultrapassar um metro de altura e ocorre naturalmente na Europa, Ásia e norte de África. Emigrou ainda para os EUA, onde goza de reputação lastimável como planta daninha. Mas isso não é coisa que lhe deva importar muito.

27.4.10

Tinto da região demarcada


Linaria aeruginea (Gouan) Cav.

Indicaram-nos, como endereço, um rio e uma estrada a bordejá-lo. Nós, mal o tempo se compôs, fomos à procura dela. Guiados pela EN 222 em direcção a S. Salvador do Mundo, a cada quilómetro mais receosos das perdas nos taludes vítimas do zelo herbicida, só a avistámos perto do Pinhão. Menos que vinte hastes florais, erectas como cabides, de pontas púrpura (aeruginea indica que têm cor de ferrugem) a salpicar um muro de não mais de cem metros. Para nossa fortuna, as flores são avantajadas, distinguem-se até as riscas do peito, e o esporão é longo como o de um inusitado cálice de Porto.

Talvez pela concentração elevada de vapores etílicos nesta região, houve quem lhe chamasse Linaria supina (prostrada); e, comprovando que o sumo de uva tem fama pelo proveito, há mesmo quem lhe atribua o nome comum ansarina-amarela - leu bem, amarela. É verdade que a obra de O. Polunin e B. E. Smythies sobre a flora do sudoeste europeu regista alguma variação de cor nesta espécie, arriscando mesmo um castanhado-amarelado. E dá uma ajuda à identificação: as folhas, sendo estreitas e lembrando as do linho como é usual neste género, têm margens reviradas para dentro.

A palavra taluda não deriva da sorte grande que representa encontrar um endemismo ibérico tão raro como este num vulgar talude, mas deveria. Um dia destes conto-vos qual foi a terminação.

26.4.10

Nem tanto ao mar


Arenaria montana L.

Arenaria evoca areia, praia, as ondas do mar - mas não é lá que vive esta planta. Outras suas congéneres preferirão viver nas dunas, e daí o nome do género, mas a Arenaria montana fica-se pelos bosques e urzais do sudoeste da Europa (em Portugal, só na metade norte), pulando ainda o estreito de Gibraltar para uma visita a Marrocos. Fazendo jus ao epíteto específico, dá-se bem em lugares elevados, mas não está de modo nenhum a eles confinada: já a encontrámos em Amarante, nas margens do Tâmega, e também em Valongo, perto do rio Ferreira, em altitudes de 100 a 200 metros.

O género Arenaria é populoso, com cerca de 160 espécies no hemisfério norte, em habitats preferencialmente montanhosos que vão do temperado ao árctico. A arenária-dos-nossos-montes tem flores de 1,5 cm de diâmetro, típicas do género tanto na cor branca como na disposição das pétalas, que surgem entre Março e Julho. Outros sinais particulares são os caules rastejantes, pubescentes, filiformes, e as folhas curtas (1 a 2 cm) e lanceoladas, de cor verde-cinza.

25.4.10

Voava, voava


Ophrys tenthredinifera Willd.

       Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras
       Homero, Odisseia (Canto XI)

Antes ser sob a terra abolição e cinza Do que ser neste mundo rei de todas as sombras

Sophia de Mello Breyner Andresen, Paráfrase (O nome das coisas, 1977)


24.4.10

Orquídea mosqueada


Neotinea maculata (Desf.) Stearn

Um homem cruzou-se com um animal e leu-lhe três fábulas para o ensinar.

Mais tarde um animal cruzou-se com um homem e deu-lhe três dentadas para o ensinar.

Mais tarde a Natureza inteira cruzou-se com o homem e com o animal e enterrou-os com três pazadas de terra para os ensinar.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)

23.4.10

Curar as feridas


Anthyllis vulneraria L. / Briza maxima L.

Os ervanários tradicionais vendiam em saquinhos (e talvez ainda vendam) uns preparados que eram uma mistura de folhas e galhos secos. Ainda que de efeito ténue ou mesmo indetectável, essas mistelas compensavam a debilidade terapêutica com a versatilidade das suas aplicações. Tanto podiam ser empregues em tisanas (uso interno) como esfregadas directamente na cútis do paciente (uso externo). Os dois modos de usar podiam ainda, com assinalável poupança de esforço, ser combinados num só: a mesma infusão em água quente tanto podia beber-se como ser aplicada directamente à pele. O chá não seria delicioso, mas não causava indisposições nem azias; e, se não curava as doenças de pele, esse banho aromatizado também não parecia provocá-las.

Vem isto a propósito da leguminosa que aqui trazemos hoje e que é tradicionalmente conhecida como vulnerária, nome que aliás coincide com o seu epíteto científico. (A gramínea que também se vê na foto tem o sugestivo nome de bole-bole.) Vulneraria significa, em latim, a que cura as feridas. Aquele a que hoje chamaríamos cirurgião, ou homem cuja profissão é tratar os feridos, era chamado vulnerarius em latim. Vulnero significa ferir, e vulnus é ferida. O étimo sobrevive em português no adjectivo vulnerável.

Não espanta pois saber que a vulnerária, fresca ou seca, era usada em cortes, contusões e queimaduras, servindo para estancar hemorragias e acelerar a cicatrização das feridas. Possui assim todas as qualidades para integrar o mix multiusos que os ervanários disponibilizam aos seus clientes. Quanto a poder ser ou não ingerida, a opinião dos herbívoros que ruminam nos nossos campos é francamente positiva.

A vulnerária é uma herbácea de vida curta, peluda, de 20 a 60 cm de altura. Distingue-se pelas brácteas verdes, lobadas, que servem de colarinho às inflorescências. Reconhecem-se dezenas de subespécies da Anthyllis vulneraria, mas não é fácil destrinçá-las. No livro Plantas a proteger no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, António Flor refere a ocorrência no PNSAC de uma Anthyllis lusitanica Cullen & P. Silva, mas deve tratar-se da mesma a que a Flora Digital de Portugal chama Anthyllis vulneraria subsp. gandogeri (Sagorski) W. Becker ex Maire.

22.4.10

Alho tríquetro


Allium triquetrum L.

Ainda a chuva e o frio de Março por aqui nos serviam e já se viam mantos de flores deste alho em terrenos húmidos, escarpas soalheiras e jardins. Agora este regato branco parece na iminência de secar. Engano nosso: a planta acautelou-se com numerosos bolbos e os frutos são cápsulas, com dezenas de sementes escuras, suficientemente robustas para rolar por alcantis enquanto sacolejam e espalham o conteúdo. É tão eficiente a propagar-se fora da região mediterrânica de onde é nativa, que são comoventes as denúncias dos que candidamente desejaram canteiros com outras cores e a quem resta, em jeito de vendeta, consumir os bolbos como tempero - recendem intensamente a Allium sativum L. se triturados - até ao extermínio.

O nome (do latim triquètru, triangular) alude à quilha de três gumes nas folhas e à secção também triangular da haste floral. As flores hermafroditas têm tépalas raiadas de verde e nascem em umbelas pendentes e unilaterais - ouvidos atentos ao urdir da Terra.

21.4.10

Linha das alfavacas



Um país onde tudo desaparece (a expressão é de Jorge de Sena) é terreno fértil para a indústria da nostalgia. Não que ela não se dê bem noutros países ou culturas. A nostalgia do tempo passado, que o envelhecimento vai exacerbando, é intrínseca à espécie humana. E há a nostalgia das épocas que não se viveram, com o glamour falseado que os filmes ou romances lhes foram colando. Existe, porém, um outro tipo de nostalgia em que Portugal claramente se destaca: a dos lugares que foram obliterados ou ficaram irreconhecíveis. Não é preciso ter vivido muitas décadas para compilar um volumoso álbum de recortes com praças, jardins, árvores, paisagens, ruas e edifícios que foram engolidos pela voragem da renovação cega ou sucumbiram ao abandono. Livros como Lisboa desaparecida, Porto desaparecido e Lugares da memória têm assunto à farta sobre que discorrer. Ainda a obra está no prelo e eis que uma demolição ou requalificação lhe desactualizam o conteúdo. Do mal o menos: a edição seguinte terá mais capítulos e mais fotos para recordar como era dantes.

E há também as linhas desaparecidas. Com a aposta nacional nas auto-estradas e na mobilidade individual, a nossa rede ferroviária vem sendo sistematicamente desmantelada desde a década de 1980. Para quem quiser hoje viajar pelo país, o comboio só é uma opção razoável no eixo Porto-Lisboa. Nalguns casos as linhas ainda funcionam, mas com horários inconvenientes e desarticulados; noutros, foram definitivamente encerradas; noutros ainda, foram-no provisoriamente, à espera de obras de Santa Engrácia. Mais uns anos, se se fizer nova edição do livro Pelas linhas da nostalgia [Edições Afrontamento, 2008; autores: Rui Cardoso e Mafalda César Machado], sobre vias férreas abandonadas, ela terá de abarcar quase todo o mapa ferroviário nacional anterior a 1980.

O propósito dos autores do livro é porem-nos a andar na linha - o que, se já lá não circula o comboio, é sem dúvida uma óptima ideia. Quase todos os passeios sugeridos são por linhas encerradas nos últimos trinta anos. Uma excepção é a linha em bitola estreita que ligava Porto de Mós às minas de carvão da Bezerra, na Serra dos Candeeiros: inaugurada em 1930, transportou passageiros até 1935; a partir daí, e até ao encerramento em 1948, serviu apenas para mercadorias. Os carris e o travejamento cedo foram retirados, mas o antigo canal ferroviário de 12 km, com piso de cascalho em metade da sua extensão, liga ainda as duas povoações.

Segundo o livro, o nome oficial da antiga via é Caminho-de-Ferro Mineiro do Lena. Chamamos-lhe linha das alfavacas não com intenção depreciativa, mas para homenagear uma planta (Astragalus lusitanicus) que por lá se encontra em quantidades invulgares, e que parece escassear no resto da Serra dos Candeeiros. Aliás, as muitas e variadas plantas que colonizaram o leito da antiga via ou as rochas que foram escavadas para lhe dar passagem tornam impraticável, aos botânicos amadores, fazer todo o percurso de uma só vez. Se a cada meia dúzia de metros há uma planta que nos acena para pararmos, como podemos completar os doze quilómetros?

Quanto à alfavaca, trata-se de uma leguminosa que, em Portugal, está presente em partes do nordeste e em todo o centro e sul; globalmente, ocorre ainda em Espanha, Grécia e norte de África. É um herbácea perene, de não mais que 70 cm de altura, com folhas pinadas compostas por 8 a 12 pares de folíolos. No litoral começa a florir logo em Fevereiro ou Janeiro, produzindo em seguida vagens inchadas, de 6 a 7 cm de comprimento. Não consta que tais feijões sejam comestíveis, mas a planta é redimida pelas suas evidentes qualidades ornamentais.



Astragalus lusitanicus Lam.

20.4.10

Brancura enganadora


Lamium album L.


Lamium maculatum L.

Houvesse uma ciranda para peneirar pepitas de branco e teríamos a tarefa facilitada. Apelamos, por isso, às palavras que, sem baraços, distinguem a versão albina de uma flor que costuma ser cor-de-rosa (a do L. maculatum, assim chamado pela banda prateada que frequentemente mancha o centro das folhas) da flor imaculada do L. album (fotografada em Hampstead Heath), espécie nativa em quase toda a Europa mas que não ocorre espontaneamente em Portugal. O L. maculatum é entre nós planta comum mas a variante alva é muito rara.

Como a floração destas duas espécies é simultânea (de Abril a Novembro), um olhar treinado em passatempos de jornal detecta sem hesitar algumas diferenças. A mais óbvia é a penugem no lábio superior da flor do L. album, que no L. maculatum só enfeita a margem. Consegue notá-la? Além disso, a primeira tem anteras escuras e um pontilhado amarelo no lábio inferior. Enfim, as folhas também não são idênticas, uma das plantas optou pelo triângulo, a outra preferiu uma oval. Devaneios, dirá, e bem, o leitor.

19.4.10

Faveira dos pauis


Menyanthes trifoliata L.

O nome faveira-dos-pauis é uma tradução apressada do inglês bogbean, e refere-se à semelhança entre as folhas desta herbácea perene, quando ainda tenras, e as da faveira comum (Vicia faba): ambas as plantas apresentam folhas trifoliadas, com folíolos grandes, em posição semi-vertical, dobrados longitudinalmente de modo a formarem sulcos. As semelhanças ficam-se por aqui, pois a Menyanthes trifoliata prefere viver em charcos e não consta que dê frutos comestíveis.

As flores de pétalas franjadas recordam as de uma outra planta aquática, essa de flores amarelas, que já aqui trouxemos: o golfão-pequeno. Aliás Lineu baptizou esta última planta como Menyanthes nymphoides; mas, após várias atribulações taxonómicas, Otto Kuntze (1843-1907) transferiu-a definitivamente, em 1893, para o novo género Nymphoides. O resultado dessa e de outras deserções é que hoje a Menyanthes trifoliata é a única espécie do seu género.

Trata-se de uma planta de caule rastejante que, a intervalos mais ou menos regulares, vai lançando folhas e içando hastes floridas com 20 a 25 cm de altura. As flores são pequenas, com uns 15 mm de diâmetro. Sem calçado apropriado - o mínimo seriam umas galochas de cano alto -, o fotógrafo socorreu-se da tele-objectiva, e teve de contentar-se em captar as flores de perfil. O local foi um dos lagos na reserva de Burnham Beeches, em Buckinghamshire, perto de Londres.

A espécie é bastante comum em Inglaterra, e a sua área de distribuição global é muita ampla, abrangendo a Europa, a Ásia e a América do Norte. No nosso país, há registos da sua presença em lagos ou charcos da Serra da Estrela, Paredes de Coura e Montalegre. Apesar de as últimas herborizações já terem algumas décadas e de a planta não estar listada na Flora Digital de Portugal, podemos assegurar que ela ainda existe na Serra da Estrela.

17.4.10

Orquídea greco-lusa


Orchis italica Poiret

Lisboa, 18 de Novembro de 1969


Caríssimo Jorge

Do coração agradecemos o teu livro. Que apesar de todas as suas amarguras me arrancou dum dia péssimo.


Paradoxalmente, o poema de que mais gosto é
“Deixa os gregos em paz”, embora realmente eu creia que teremos de recomeçar tudo a partir dos gregos, isto é, a partir da fidelidade ao terrestre. Creio que o grande mal português será que sempre deixamos os gregos em paz. Por isso somos um país que não se reconhece. Um país que julga que a austera, apagada e vil tristeza é a condição do homem. Fomos um país de grandes navegadores - mas nunca tivemos em frente do mundo aquele sorriso de espanto que tinham as estátuas dos navegadores jónicos. Se você fosse à Grécia ficaria espantado de ver que a Grécia é muito mais grega do que tudo o que imaginamos – é muito mais grega do que o filme do Zorba. E quer tendo Homero, quer tendo a terrível Guerra do Peloponeso, quer tendo a Retirada dos Dez Mil, vemos que de grego foi ter estado mais no mundo em que estamos, e que os gregos eram gregos com uma veemência anterior à decadência da vida.


Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, Correspondência 1959-1978 (Guerra e Paz, 2006)

16.4.10

Cornilhão


Scorpiurus muricatus L.

Há plantas que só existem para nos confundirem, fazendo com que as nossas laboriosas mnemónicas de reconhecimento falhem sem apelo. As leguminosas cultivadas ou espontâneas - trevos, favas, tremoceiros, luzernas e tantas mais - têm, em regra, folhas compostas por três ou muitos folíolos, e costumam servir de alimento seja para o gado (frescas ou na forma de forragem), seja para o homem. Acontece que o cornilhão é uma carta fora do baralho: não se come (embora seja inofensivo e, diz-se, se possa juntar a saladas à laia de enfeite) e as suas folhas são simples. Terá algum valor ornamental, mas não consta que tenha conquistado lugar ao sol em jardins requintados. Em suma, não existe para nos comprazer nem para nos ser útil. Estamos já longe dos tempos em que a Bíblia, interpretada literalmente, nos explicava que toda a criação estava ao nosso serviço e nos exortava a dominar a Terra. As palavras ainda lá estão, mas os exegetas lêem-nas hoje de modo diferente. Ou deveriam lê-las, pois a lição antiga já mostrou o que vale como receita para o desastre. Eis o que nos ensina uma humilde planta anual que não nos pede licença para existir.

Dito isto, se o cornilhão estiver em flor, coisa que sucede de Abril a Junho, a sua filiação nas leguminosas (família Fabaceae) é denunciada pelas típicas flores, que são diminutas (7 a 9 mm de diâmetro) e surgem em cachos de duas ou três no topo de um pedúnculo esguio, mais alto do que as folhas. Outra marca distintiva é o fruto: sendo reconhecivelmente uma vagem, aparece enrolado, marcado por sulcos longitudinais e coberto por espinhos ou inchaços, fazendo lembrar uma lagarta.

O Scorpiurus muricatus distribui-se por toda a Europa mediterrânica, da Península Ibérica à Turquia. O seu parente mais próximo, e de facto o seu único congénere, é o Scorpiurus vermiculatus, que ocorre também em Portugal. Conhecido igualmente como cornilhão, exibe um aspecto geral semelhante, mas distingue-se pelo pecíolo das folhas, mais alongado, e por ter flores solitárias.

15.4.10

Reunião de assembleias


Iberis procumbens subsp. microcarpa Franco & Pinto da Silva

......Não é só o rio que não se repete. / Nada pode ser contemplado duas vezes nos teus olhos.
......Mario Benedetti

Já nos cruzámos com uma Iberis procumbens em São Jacinto, mas na altura estávamos de saída e mal a apresentámos. As assembleias-das-areias são da subespécie procumbens por terem pequena estatura e tendência para preguiçar deitadas. São endémicas do litoral atlântico da Península Ibérica, com floração de Abril a Agosto para encantar quem nessa altura procura o céu de azul e areia.

A subespécie microcarpa é portuguesa, e o seu habitat restringe-se a terrenos incultos e calcários do litoral centro, desde o Mondego à Serra da Arrábida. As flores, a tender para o lilás, agrupadas em inflorescências densas niveladas no topo da planta, são também de Primavera-Verão. As quatro pétalas de cada flor estreitam-se na base, como é frequente nas crucíferas, e dispõem-se de modo que as duas pétalas mais longas fiquem no bordo do arranjo a seduzir borboletas. O fruto, com duas sementes aladas, lembra aquelas guloseimas de açúcar caramelizado fixas num palito para se segurar enquanto se lambe - e o nome vernáculo inglês é candytuft.

14.4.10

No fojo da serra



Culcita macrocarpa C. Presl

Hoje em dia, em Valongo, parece só sobrar ardósia: é essa a pedra que forma a ossatura da serra, e por isso não exige grandes escavações para ser extraída. Mas regista a história que na época dos romanos era o ouro o minério cobiçado por quem perfurava estes montes. Várias extensas galerias subterrâneas, em Santa Justa e Pias, ficaram como marcas desse labor remoto. Popularmente conhecidas como fojos, servem de esconderijo a animais e plantas para quem a serra invadida por eucaliptos se tornou inabitável. É irresistível o paralelismo entre os refugiados dos fojos e os cristãos nas catacumbas de Roma, mas falta saber se alguma vez em Valongo a vida à superfície voltará a ser possível.

O feto-do-cabelinho, acima retratado, ocorre na Madeira e nos Açores, onde é relativamente frequente em florestas, ravinas e prados naturais. No território continental português, porém, este feto só existe em Valongo, confinado a três poços de acesso a fojos; em cada um deles, os exemplares contam-se pelos dedos duma só mão. Felizmente a situação da espécie em Espanha não é tão desesperada, pois estão referenciadas várias populações no extremo norte da Península. Quanto a nós, imaginem que algum espeleólogo mais arrojado resolvia explorar estes buracos sem pedir licença a ninguém. Com doses iguais de temeridade e inconsciência, e algum azar à mistura, protagonizaria o último acto da vida destas plantas em Portugal continental: a erradicação.

O feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa) é uma planta perene, com grandes frondes bipinadas - próprias para serem fotografadas a uma distância respeitosa - de quase dois metros de comprimento. Uma única outra espécie, Culcita coniifolia, da América Central e do Sul, completa o género Culcita, que está integrado numa família (Dicksoniaceae) onde sobressaem vários fetos arbóreos muito prezados como ornamentais, como os que vegetam no Buçaco ao longo do vale dos fetos.

13.4.10

A flor do segredo


Cynoglossum clandestinum Desf.

Os britânicos chamam-lhe hound's tongue, em alusão ao formato das folhas, tradução literal de cynoglossum (do grego kyon, cão, e glossa, língua). Reparando nas flores, o Portugal Botânico de A a Z traduz o epíteto clandestinum (escondido) por um prosaico cinoglossa-de-flor-fechada. Convenhamos que é estranho uma flor ter o hábito de nunca se abrir. Excessiva timidez é sinal de alma dividida, ou necessidade de esconder a alegria. Neste caso, são os bens que ela põe a salvo das formigas e de outros bichinhos gulosos que, ao contrário das abelhas, lhe roubam o néctar mas não colaboram na polinização. Cada fruto que esta estratégia proteccionista lhe assegura é formado por quatro «nozes» achatadas e verdes, cobertas com espinhos aduncos como ganchos; mas o que se vê na foto não passa ainda de um embrião.

Esta herbácea é do sul da Península Ibérica. Há, felizmente, regiões com natureza mais mansa onde outras cinoglossas franqueiam as suas flores (como o C. cheirifolium L. ou o C. creticum Miller, do sudoeste da área mediterrânica), permitindo verificar que têm 5 pétalas reviradas de cores janotas (azul, violeta, roxo, púrpura, carmesim) unidas em tubo cuja entrada é, contudo, dificultada por brácteas alteradas em abas. A penugem farta destas plantas - umas 60 espécies da Europa, Ásia e África - é um dos seus traços de família.

12.4.10

Urze rosada


Erica australis L.

O nome popular registado para esta planta é urze-vermelha, o que denuncia um défice generalizado de acuidade visual. Urze-rosada seria designação muito mais certeira, mas já não vamos a tempo de endireitar o mundo. Aliás, nisto de nomes vernáculos estamos muito mal servidos. A maioria deles não nos dá qualquer pista sobre a aparência da planta, nem nos ajuda a relacioná-la com outras plantas do mesmo género. A erva-de-São-Fulano não tem qualquer semelhança ou parentesco com a erva-de-São-Sicrano; a erva-fina é uma gramínea, a erva-língua uma orquídea. Entre nós, o conhecimento das plantas, mesmo na mítica aldeia de antanho, sempre foi escasso e superficial. Em Inglaterra, onde a urbanização ou suburbanização não cercearam o gosto pela natureza, um inexaurível exército de naturalistas amadores ajudou a cristalizar um conhecimento botânico popular vertido numa nomenclatura quase tão sistemática como aquela que é promulgada pela ciência. Para um exemplo entre muitos, creeping buttercup, meadow buttercup, bulbous buttercup e goldilocks buttercup são tudo nomes de ranúnculos: buttercup faz as vezes do nome genérico Ranunculus, e é precedido por um adjectivo que tem função análoga à do epíteto específico. Nomes populares portugueses para os ranúnculos são botão-de-oiro, erva-hemorroidal e erva-quaresma. Poderão ser pitorescos e até sugestivos, mas ninguém deduz deles qualquer afinidade entre as plantas assim nomeadas.

Voltemos à (mal) chamada urze-vermelha. Já é azar que, num dos poucos grupos de plantas em que a terminologia popular é esclarecedora, se tenham equivocado na cor. Adiante. Em Portugal existem urzes espontâneas que atingem porte considerável, de dois a seis metros de altura. São elas, por ordem decrescente de tamanho, a Erica arborea, a Erica lusitanica, a Erica scoparia e a Erica australis. As duas primeiras têm flores brancas (fotos aqui), as flores da terceira são esverdeadas, e as da quarta são conforme o retrato acima afixado. A Erica australis, que é uma das urzes mais comuns de norte a sul do nosso território, raramente ultrapassa os dois metros e meio de altura. As duas características apontadas - ser grande e ter flores rosadas - são suficientes, em muitos casos, para a identificarmos. Mas, como tudo quanto é grande começa por ser pequeno, vale sempre a pena atendermos aos detalhes - ou, neste caso, às flores. As da E. australis têm um cálice penugento, formado por sépalas pontiagudas, de tom púrpura, parcialmente cobertas por brácteas da mesma cor.

A urze-rosada floresce precocemente, às vezes ainda no Inverno; em locais quentes do sul da Península pode manter-se em flor durante quase o ano inteiro. É uma planta muito visitada por abelhas, que fazem do seu néctar o principal ingrediente do mel de urze. Em Valongo, na Serra de Pias, pintou ela de rosa a encosta que desce até à ponte de Couce. Ficou bonito e até fez esquecer os eucaliptos. Não pode haver propaganda mais eloquente das suas qualidades ornamentais.

11.4.10


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10.4.10

Orquídea dos colarinhos


Cephalanthera longifolia (L.) Fritsch

Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua com olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E, a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo da sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.

Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou sub-repticiamente a marcar seu avanço na pele do rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos da boca.

Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz até a boca tornou-se inegável. Sem nada dizer, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho húmido e, silenciosa, ligou o ferro.

Marina Colasanti, Um espelho de Marfim e Outras Histórias (Figueirinhas, 2004)

9.4.10

Sozinha no bosque


Halimium umbellatum (L.) Spach

Esta é mais uma daquelas plantas solitárias que encontramos por vezes em Valongo. Não é que recuse a companhia das suas semelhantes: elas é que debandaram em massa e a deixaram sozinha no bosque. E que assustador é este bosque mesmo não sendo frequentado por lobos. Porque esta sargacinha não foi educada para viver cercada de eucaliptos, nem para suportar os veículos atroadores que constantemente ameaçam atropelá-la.

Tudo somado, Valongo guarda um número apreciável de preciosidades botânicas. O que perturba é a precaridade da vegetação destas serras: é tudo escasso, frágil e ameaçado. Talvez a classificação, a concretizar-se em breve, das Serras de Santa Justa e Pias como paisagem protegida de âmbito local permita recompor alguns ecossistemas e, sobretudo, controlar os «desportos» motorizados. Se os estragos da eucaliptização se revelarem irreversíveis, que pelo menos se proteja eficazmente o que ainda resta.

Os arbustos do género Halimium são muito semelhantes aos Cistus, mas a maioria das espécies nele incluídas (como estas duas) dão flores amarelas, cor que os Cistus estão probidos de ostentar. Quando as flores são brancas é que o caso se complica. O Halimium umbellatum, que floresce de Março a Maio, é um sósia quase perfeito do Cistus clusii, dele se distinguindo essencialmente pelos frutos. Mas não precisamos de nos preocupar com minudências dessas, pois o Cistus clusii, embora presente em Espanha, não é espontâneo em Portugal. Quanto ao Halimium umbellatum, trata-se de um arbusto de não mais que 70 cm de altura, penugento, por vezes viscoso; as suas folhas exibem forma linear, são alvacentas na face inferior, e têm margens recurvadas para dentro. Dá-se bem em pinhais, e gosta de terrenos silicosos como os que há na serra de Valongo. Além de morar em Portugal, está presente em países do Mediterrâneo ocidental como a Espanha, França, Grécia, Marrocos e Argélia.

8.4.10

Jacinto-da-tarde



Dipcadi serotinum (L.) Medik.

Give me some mud off a city crossing, some ochre out of a gravel pit and a little whitening and some coal dust and I will paint you a luminous picture if you give me time to gradate my mud and subdue my dust.
John Ruskin

Não é só a cor, mistura suave de laranja, castanho e bronze, que atrai nesta inflorescência de sininhos. A espiga de flores, de perfil, com 10 a 40 cm de altura, mostra como elas se dispõem viradas para um mesmo lado, inclinadas como se adivinhassem, com embaraço, que estamos a falar delas.

Trata-se de uma herbácea perene e bolbosa, frequente em terrenos incultos ou rochosos de montanha no sudoeste da Europa e no Norte de África mas que pode passar despercebida precisamente quando está em flor (Março-Junho), por causa da cor mate que adoptou e das suas três a cinco folhas basais estreitas. O que não a impediu de ser várias vezes descoberta e, com natural júbilo, nomeada: Hyacinthus fulvus Cav. (o latim fulvus aludindo ao moreno da flor), Uropetalum serotinum Ker Gawl. (do grego oura, a propósito das pontas reviradas das três pétalas exterioes) ou Hyacinthus serotinus L. (do latim serotìnu, referindo-se talvez ao amadurecimento serôdio do fruto). Julgámos que dipcadi seria aviso do pecado inato a planta tão virtuosa. Mas não. Segundo William T. Stearn, dipcadi é o nome turco deste jacinto (e não sul-africano como afirma o dicionário Houaiss).

As 55 espécies no género Dipcadi são originárias de África e do sul e oeste da Europa. D. serotinum é a única espécie ibérica.

7.4.10

A eufórbia de José Gomes Pedro




As falésias entre a Serra da Arrábida e o Cabo Espichel estão viradas para sul. Fosse a terra plana e viéssemos nós equipados com visão telescópica, era em Marrocos que o nosso olhar se fixaria. Isto se conseguíssemos desprendê-lo do cenário esmagador de escarpas abruptas e praias secretas que nos rodeia. Quem vem do norte tem de encontrar nem que seja um pequeníssimo defeito para se defender: à noite não é neste mar que o sol mergulha.

Com a criação, por decreto-lei de 1976, do Parque Natural da Arrábida, quis-se proteger a flora do rebordo sul da península de Setúbal. Uma visita de um dia só à envolvente do Cabo Espichel, guiados por quem lhe conhece todos os trilhos, nichos e recantos, e sabe de cor o nome de todas as plantas grandes ou pequenas, forneceu-nos um panorama incompleto mas eloquente da vegetação ímpar deste parque. E as pessoas que nos acompanharam são tão generosas que querem partilhar o seu saber e entusiasmo com toda a gente. Botânicos amadores, aprendizes de naturalistas, curiosos do mundo vegetal: de que estão à espera para se inscreverem na Sociedade Portuguesa de Botânica?



Euphorbia pedroi Molero & Rovira

A Euphorbia pedroi, que só há treze anos foi oficialmente baptizada, é um dos símbolos maiores do Parque Natural da Arrábida. Com um tronco atarracado e cinzento, e uma copa arredondada que faz lembrar a de uma árvore em miniatura, é um arbusto que pode atingir os dois metros de altura e que, no Verão, se despe da sua folhagem semi-carnuda. Vive nas escarpas, sobre solo esquelético ou em fissuras de rochas. Dela se conhecem quatro populações entre a Arrábida e o Cabo Espichel. Não existe em mais lugar nenhum do mundo.

A proximidade morfológica entre a Euphorbia pedroi e outras espécies como a E. dendroides, ausente de Portugal mas de ampla distribuição mediterrânica, explicará como ela pôde permaner tantos anos incógnita. Durante longo tempo terá prevalecido a opinião de que a eufórbia da Arrábida seria a E. obtusifolia, espécie que hoje em dia (sob o nome E. regis-jubae) se julga estar confinada a Marrocos e às ilhas Canárias. Além da E. pedroi, as únicas outras eufórbias arbustivas espontâneas em território português são as madeirenses E. piscatoria e E. anachoreta.

Foi o engenheiro agrónomo José Gomes Pedro - nascido em 1915, um dos maiores estudiosos da flora arrabidense, galardoado em 2006 com o Prémio Quercus e autor do livro Vegetação e Flora da Arrábida (ICN, 1991) - quem primeiro reconheceu que a eufórbia que hoje leva o seu nome era afinal um caso à parte. Mas só em 1997, com a publicação nos Anales del Jardin Botánico de Madrid, é que a descoberta foi oficializada pelos botânicos espanhóis Julián Molero e A. M. Rovira.