31.3.10

Folhado florido



Viburnum tinus L.

Quando a Primavera se nos apresenta com o seu cabaz de muitas e sortidas flores, seria ingratidão esquecermos aquelas plantas que nos fornecem regalo à vista no tempo das flores magras. E o folhado (Viburnum tinus), além de iniciar a sua lida floral ainda em pleno Inverno, prolongando-a até Abril, faz-nos companhia tanto nas cidades como em muitos dos nossos espaços naturais. Trata-se de um dos poucos arbustos da nossa flora espontânea que entraram no comércio hortícola e têm lugar de honra em jardins públicos e privados. As fotos reflectem essa dualidade: a primeira foi captada na Mata da Margaraça (concelho de Arganil), a segunda no Parque de Serralves. Ou um tête-à-tête entre uma planta da cidade e uma planta do campo, sem que nenhuma se sinta diminuída face à outra.

Originário da Europa mediterrânica e do norte de África, o folhado prefere bosques perenifólios ou galerias ribeirinhas. Em Portugal, e apesar de ocorrer também no vale do Douro, é mais comum da Beira Litoral para sul, parecendo estar ausente na faixa mais oriental do território. Na Margaraça encontramo-lo associado a azereiros, medronheiros e loureiros; no Pinhal do Rei, na Marinha Grande, é parte do coberto arbustivo do pinhal manso.

É um arbusto perenifólio, de folhas grandes (até 10 cm), verde-escuras e opostas, que pode atingir os seis metros de altura mas em geral se fica por bem menos. As flores, com cinco pétalas brancas ou rosadas fundidas na base, vêm dispostas em agrupamentos achatados (chamados corimbos) com cerca de 10 cm de diâmetro. Os frutos são drupas pretas ou azuis-escuras, pequeninas, cada uma delas contendo uma única semente. E são os pássaros que, devorando a polpa dos frutos por a acharem deliciosa (opinião não necessariamente partilhada pelos humanos), se encarregam de espalhar as sementes.

30.3.10

Azul na terra como no céu


Polygala microphylla Link

Perhaps the finest flower of Northern Portugal and the neighbouring part of Spain, which hangs from the shady banks and is literally covered with blue flowers in myriads. P. L. Giuseppi, Portugal and its Plants, Bull. Alp. Gard. Soc. 14, 1946 (transcrito de Polunin & Smythies, Flowers of South-West Europe, Oxford University Press, 1997)

Convictos de que este ano o mundo está a funcionar normalmente - se dúvidas houvesse, bastar-nos-ia esta chuva inesgotável, entre outros tormentos mais civilizados, para as dissipar -, aceitámos resignados o formato simplificado das flores desta Polygala, sem o ápice fimbriado que é usual no género. Afinal não é defeito, a espécie é celebrada e esse detalhe até ajudou a identificá-la.

É uma herbácea vivaz baixinha (não mais de 10 cm de altura; as sépalas em asa não excedem 1 cm) que vive em rochedos e bosques ensombrados por sobreiros ou pinheiros do norte de Portugal. As folhas, pequenas e lineares, pouco duram, deixando as flores hermafroditas sozinhas em palco entre Fevereiro e Junho.

Das cerca de quinhentas espécies de Polygala, dezassete são europeias e, delas, apenas seis escolheram a Península Ibérica como casa. A das fotos, rara, talvez esteja a mudar de endereço.

29.3.10

Samambaia arrepiada


Blechnum brasiliense Desv. [cultivar «Crispum»]

Não são estas as samambaias que no Brasil se costumam cultivar em vasos pendurados do tecto. Mas samambaia é nome que lá se dá aos fetos que formam abundantes tufos de frondes arqueadas. O Blechnum brasiliense, de que o epíteto revela claramente a pátria de origem, segue o mesmo figurino, mas atinge um peso e um tamanho que exigem o apoio da terra firme. Chega mesmo a formar um pequeno tronco, e as suas folhas pinadas e coriáceas esticam-se até um metro e meio de comprimento. Não será excessivo incluí-lo na categoria dos fetos arbóreos.

O Blechnum spicant, que há tempos aqui apresentámos, tem dimensões modestíssimas se comparado com o seu primo sul-americano. De facto, esse pequeno feto ribeirinho parece ser o único membro europeu do género Blechnum. A maioria das restantes espécies - há cerca de duzentas - prefere as regiões tropicais do hemisfério sul, sobretudo da América e da Austrália. Assim, e pese embora o seu aspecto incomum aos nossos olhos, o Blechnum brasiliense, que gosta de locais húmidos a meia sombra ou a pleno sol, é um representante típico do género a que pertence.

Com grande potencial decorativo, o que mais chama a atenção no Blechnum brasiliense é o vermelho acobreado das suas folhas. É esta a cor que elas têm quando novas, mas ficam verdes ao envelhecer, e a presença dos vários tons intermédios dá à planta uma atraente variedade cromática. No cultivar «Crispum», de que existem muitos exemplares no Jardim Botânico do Porto, há ainda a particularidade de os folíolos serem retorcidos, quase arrepiados.

28.3.10

Festa da Primavera


Masdevallia sp.

Exposição de Orquídeas Tropicais

17 e 18 de Abril de 2010

Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa

10h00 às 18h00

Organizada pela Associação Portuguesa de Orquidofilia

27.3.10

Moscardinho



Ophrys bombyliflora Link

Button Moulder - Hello, old man.
Peer - Good evening, friend.
Button Moulder - In a hurry? What are you doing, here on this empty moor?
Peer - Moving towards my death. What else?
Button Moulder - Ah. Excuse me... my eyes aren't what they were. Are you Peer Gynt?
Peer - So people say.
Button Moulder - Perfect! The man I was sent to find.
Peer - What for?
Button Moulder - Easy. I'm a button moulder. You're to go in my ladle.
Peer - Why?
Button Moulder - To be melted down.
Peer - Pardon?
Button Moulder - Here's the ladle, wiped and waiting. Your grave's dug. Your coffin's ordered. My orders are to fetch your soul to the Boss at once.
Peer - Without a word of notice?
Button Moulder - That's how it's always done. Births... burials. Day chosen on the quiet. Not a word to the guest of honour.
Peer - I don't feel well. Oh Peer! What an end to your journey! I wasn't all that bad. An idiot, perhaps. Not a proper sinner.
Button Moulder - Precisely. Not a proper sinner. You were not bad enough for the sulphur-pit, nor good enough for paradise. That's why you go to the casting ladle with the others.
Peer - You're going to melt me down, and start again?
Button Moulder - That's right. Like worn out coins.
Peer - I refuse. I won't.
Button Moulder - What's all the fuss about? It's not important. You were never yourself, alive - why do you care what happens when you're dead?
Peer - Never myself? You're joking! Never myself - Peer Gynt? What else have I ever been? I am Peer. All Peer.
Button Moulder - You have been selfish, but not yourself.


Henrik Ibsen, Peer Gynt (1867; trad. Kenneth McLeish)

26.3.10

Mostarda em barda



Brassica tournefortii Gouan.

Era sabido que não tardaria a vingança das couves e dos rabanetes. Um acto de contrição só me fica bem: eu já desdenhei das couves. Infringindo a liberdade que cada um tem de ser rei (ou rainha) em sua casa, opinei por escrito que um vizinho meu, em vez de couves, deveria ter na varanda alguma flor mais requintada. Desataram então as couves a perseguir-me em tudo quanto é jardim, fingindo-se, com indiscutível brio, de plantas ornamentais. É que a Brassica oleraceae L., que comparece à nossa mesa sob os mais diversos disfarces (penca, repolho, couves-de-Bruxelas, bróculos, couve-flor), também dispõe de uma versão anã, com folhagem em tons de rosa, amarelo e vermelho, própria para enfeitar canteiros. Tal disfarce, porém, não engana os coelhos que pululam nos jardins do Palácio de Cristal: couve, segundo eles, é para comer com a boca e não com a vista. Nos outros lugares da cidade onde não há desses vorazes roedores, as couves ornamentais têm vida mais tranquila. E há até um funcionário especializado em cortar à tesoura as hastes florais, poda inocente que visa evitar que a planta revele ao mundo o seu carácter de hortaliça.

Antes de chegarem às hortas - e, mais recentemente, aos jardins -, as couves foram simples plantas espontâneas, brotando em terrenos pedregosos ou ruderais desde a Europa mediterrânica até à Ásia temperada. Das mais de 30 espécies do género Brassica, 21 são europeias e 10 delas ocorrem na Península Ibérica. Mesmo das que foram domesticadas (como a nabiça - Brassica napus L.) encontram-se ainda populações silvestres. E algumas são invasoras fora do seu território de origem. Um exemplo é a mostarda africana, Brassica tournefortii, que pelo seu comportamento reprovável se tornou problemática nos desertos da Califórnia e do México. É que ela, habitante dos lugares mais áridos do norte de África e do Médio Oriente (e também de alguns países do sul da Europa, incluindo Portugal e Espanha), já sabia bem como sobreviver nesses habitats inóspitos. O segredo está em aproveitar qualquer vestígio de humidade para germinar antes da concorrência.

Mostarda é o nome que se dá ao condimento preparado com as sementes desta e de outras plantas semelhantes. As mostardas mais suaves provêm da Sinapis alba ou da Sinapis hirta; as mais pungentes obtêm-se de plantas como a Brassica juncea, a Brassica nigra ou a Brassica tournefortii.

25.3.10

Abelhinhas amarelas


Ophrys lutea (Gouan) Cav.

O trabalho de um evolucionista, como o dos historiadores e arqueólogos, pauta-se pela incerteza: tem de classificar organismos que desapareceram, ou ainda vivos mas que não pararam de evoluir e a cuja génese não assistiu. Além disso, aos que mal percebem o mosaico de afinidades ou de isolamento reprodutivo entre organismos, e não dominam os processos de diversificação genética e de especiação, parece que a taxonomia, com níveis tão subtis de diferenciação, é uma etiquetagem de conveniência imposta pelos cientistas à natureza. Contudo, todas as espécies têm um antepassado mais simples com uma evolução que, ainda que parcialmente desconhecida, determinou o presente e pode apoiar um estudo historicamente informado.

Até 2005, acreditou-se que as orquídeas tinham uma presença recente na Terra, começando talvez por colonizar a Malásia há uns 2 milhões de anos - muito pouco tendo em conta os 300 milhões de anos das coníferas. Mas os biólogos admitiam como improvável que uma adaptação tão astuta a uma tão grande variedade de habitats e de polinizadores (só não há orquídeas nos desertos e nos pólos; e a família Orchidaceae é a mais numerosa na Terra, com cerca de 25 mil espécies e mais de 100 mil cultivares) pudesse cumprir-se em tão curto lapso temporal.

O fóssil com 15-20 milhões anos de uma abelha (extinta, Proplebeia dominicana) com o dorso coberto de grãos de pólen de uma orquídea (igualmente extinta, Meliorchis caribea), descoberto na República Dominicana, confirmou esta suspeita. E em 2007, cientistas da Universidade de Harvard propuseram, a partir de informação genética desta planta, outra data para a primeira flor de orquídea: 84 milhões de anos, o que significa que as orquídeas afinal conviveram com os dinossauros.

24.3.10

Nacionalismo vegetal



Carduus platypus Lange

Será que as plantas reconhecem as fronteiras entre estados? Para os botânicos amadores incapazes de interpretar com acerto uma chave de identificação inçada de termos abstrusos, era bom que a resposta fosse sim. Tomemos o exemplo deste cardo, fotografado no concelho raiano do Sabugal. Como foi encontrado em território português, deverá tratar-se do Carduus platypus, uma planta que ocorre nos dois países ibéricos. Se tivéssemos deparado com ele em Ciudad Rodrigo, que em linha recta fica a menos de 60 km do Sabugal, já haveria dúvidas acerca da sua identidade. Nesse caso poderia ser antes o Carduus granatensis, o qual, sendo praticamente igual ao outro, é um exclusivo do país vizinho. Mas a pergunta impõe-se: estarão as plantas impedidas de cruzar fronteiras? Fica a dúvida a roer-nos nesta era em que, mesmo para os humanos, as fronteiras intra-europeias (tirando as dos aeroportos) passaram a ser uma abstracção: edifícios alfandegários abandonados, sem filas de quilómetros nem guardas fiscais a vasculharem bagageiras. Ainda há poucas semanas, numa visita à Portela do Homem, no Gerês, pusemos o pé do outro lado e não notámos qualquer diferença. Por que haveria então uma planta de respeitar essa linha arbitrária que já nenhuma força policial controla?

Mas voltemos ao cardo e tratemos de o situar entre os seus semelhantes. O nome genérico Carduus não engana, mas há muitos cardos que não são Carduus. Alguns até são muito parecidos, como os que foram arrumados nos géneros Cirsium e Onopordum. De Carduus legítimos há cerca de 90 espécies na Europa, Ásia e África; umas 45 são europeias, e 10 delas ocorrem em Portugal.

O C. platypus, robusta herbácea bienal que pode atingir um metro de altura, destaca-se entre os seus congéneres portugueses por exibir as maiores inflorescências, com cerca de 5 cm de diâmetro. Além disso, as suas brácteas são recurvadas e muito longas, quase lineares, com as pontas aguçadas tingidas de roxo. As suas hastes, e também as suas folhas jovens, surgem recobertas por uma penugem esbranquiçada, mas as folhas ficam glabras ao envelhecer. Frequenta terrenos cultivados ou ruderais, sobretudo aqueles que foram sujeitos a perturbações recentes. No Sabugal vicejava alegremente num bosque recém-ardido, e é bem conhecida a predilecção dos Carduus pelos entulhos de fresca data.

23.3.10

Dias de harpa


Isoplexis canariensis Lindl. ex G. Don.

Madame Defarge, em A tale of two cities, é aldeã, mulher do taberneiro e temerosa defensora da revolução francesa. É a ela que Charles Dickens confia a parte menos digna da tragédia: cabe-lhe guardar nomes e suspeitas numa renda que tricota sem descanso, testemunho que servirá a razão da guilhotina. Fosse ela tecelã da natureza e, depois da linha branca para vincar a manhã, entremearia no tapete delicadas ervas, orquídeas, narcisos, campânulas e linárias, enlaçadas em tufos de algodão felpudo com cores quentes de Abril. E, ainda que somente traços, nenhuma espécie sumiria deste chão de fios.

O género Isoplexis conta com quatro espécies endémicas na Madeira (I. sceptrum (L. fil.) Loud) e nas ilhas Canárias (I. canariensis, I. chalcantha e I. isabelliana), ou talvez menos porque são raras e estão em risco de desaparecer do seu habitat natural. Apreciam bosques húmidos de pinheiros, escarpas rochosas ou ravinas de laurissilva, onde o solo é fugidio quando chove em excesso.

A Isoplexis sceptrum é um arbusto perene com caules ramificados que chega aos quatro metros de altura. As folhas são simples, obovadas, de 10 a 40 cm de comprimento e face inferior pubescente. As flores tubulares, que lembram as do género Digitalis (onde Lineu colocou as Isoplexis e aonde elas regressaram como secção independente em 1999), têm dois lábios, o inferior dividido em três lóbulos (redondos, mais curtos que os da foto). Reúnem-se em coruchéus densos cuja duração é longa (Julho-Agosto), adaptação a alguns pássaros polinizadores atraídos por receita timbrada de néctar.

22.3.10

Primavera oriental


Primula japonica A. Gray

Tenho um vizinho que, gostando embora de plantas e cultivando uma variedade razoável delas no seu minúsculo jardim, revela alguma dificuldade com os nomes científicos. Como não gosta de fazer má figura, recorre amiúde a uma ou duas muletas de efeito assegurado. Uma delas é socorrer-se do epíteto japonica. São tantas as plantas que legitimamente ostentam esse nome que o erro, a existir, não será grave: se aquela não é japonica, outra haverá da mesma família que já o é, e a diferença entre as duas não será de grande monta. Foi assim que a magnólia-sempre-verde do jardim do meu prédio passou a ser uma Magnolia japonica - ela que, originária do sudeste dos EUA, sempre foi tratada como Magnolia grandiflora por causa das suas grandes flores. Mas não se ofendeu nada com a troca, até porque tem muitas primas japonesas.

Também as prímulas ou primaveras europeias (de que já mostrámos dois exemplos) têm família no país dos samurais. E nada melhor, para comprovar a asserção, do que trazer aqui a Primula japonica. Como país do hemisfério norte situado aproximadamente à mesma latitude que o nosso, as estações do ano, no Japão, são comparáveis às que aqui temos, e ocorrem na mesma altura. Contudo, lá a floração das primaveras (falo da flor, não da estação) é mais tardia, prolongando-se até ao Verão.

A P. japonica distingue-se da P. veris por ter as inflorescências organizadas em patamares: em cada andar - pode haver até seis - as flores dispõem-se em círculo, formando uma espécie de grinalda. Flores que podem ser brancas, ou assumir vários tom intermédios entre o branco e vermelho carregado. Nos dois extremos da escala cromática há cultivares registados no mercado europeu de jardinagem: «Miller's crimson» e «Postford white».

Petição por Monsanto

A Plataforma por Monsanto lançou um abaixo-assinado, dirigido ao presidente da Câmara de Lisboa e ao seu vereador dos espaços verdes, para que cessem as tropelias que têm sido cometidas contra o parque florestal de Monsanto: abate indiscriminado de árvores, continuação da actividade do campo de tiro, instalação de equipamentos e de actividades com impactos elevados. Os fundamentos do abaixo-assinado estão sintetizados neste documento. Quem quiser subscrever o protesto, pode fazê-lo aqui.

21.3.10

Aos desarvorados


Ginkgo biloba L. - árvore nascida de semente em 1754 - Kew Gardens

Em Espanha, aqui há uns anos, estava em andamento o projecto de cortar as árvores que ladeiam as estradas, com o objectivo de diminuir o número de acidentes graves na circulação automóvel. Um sujeito, em vez de ir bater no tronco, voaria até ao campo e com isso, certamente, muita vida seria poupada. Foi por diante o projecto? Não sei. Só sei que me pareceu uma ideia tonta, talvez porque ainda não morri contra uma árvore...

Não deixar as árvores «virem» à estrada que resolve, afinal de contas? Haverá outras maneiras menos selvagens de poupar vidas: aperfeiçoar a mecânica dos carros, melhorar (ou açaimar) os cérebros dos condutores, etc.

Hoje, que é o Dia da Árvore, pensemos nas árvores que foram sacrificadas pela nossa colectiva e sôfrega tontaria. Qual de nós não terá uma querida ausente sob a forma de uma árvore que lhe acena de muito longe no tempo? Do recanto de jardim em que havia aquela árvore, lembras-te? Caducada a folha daqueloutra, recordas-te do fino desenho invernal que os teus olhos dela recortavam contra a lividez do céu? Pois olha, olha: agora, no lugar dessa árvore, desencaixotaram um novo prédio. Conta-lhe as janelas, dá pasto melancólico aos teus tristes olhos de citadino encarcerado. Tens candeeiros. Que queres mais?

A Primavera já está a acender as suas árvores. Põe qualquer coisa como uma flor em qualquer coisa como uma lapela e sai de assobio para a rua. Sê atrevido - e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

Árvores no Cancioneiro Popular

20.3.10

Loba-anã


Chaenorhinum origanifolium (L.) Fourr.

As cabras e o modo como se aproximam de um fio de erva podem preencher todo o cérebro de uma pessoa inteligente, mesmo que tal facto se passe às sete da tarde.

Muitas coisas acontecem na natureza. Com tanta erva e animal a pastar, para quê procurar diversão nas cidades?

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)

19.3.10

O pinhal antes do rei


Pinus pinea L.

O verdadeiro Pinhal de Leiria, ou Pinhal do Rei, fica, não em Leiria, mas no concelho da Marinha Grande. São uns 110 km^2 (ou 11000 hectares) de uma vegetação que só na aparência é monótona. Entre a estrada atlântica e o mar predominam os arbustos rasteiros: tojo, camarinhas, sabinas e sargaços fazem companhia às perigosas acácias (A. longifolia) e aos famosos pinheiros serpentes. À medida que caminhamos para a costa, vai surgindo a típica vegetação dunar, dela se destacando as armérias (Armeria welwitschii) pela beleza e os chorões (Carpobrotus edulis) pela nocividade. Para o interior, a leste da estrada atlântica, desenvolve-se o pinhal propriamente dito, em que um rico sub-bosque de adernos (Phillyrea angustifolia), urzes e samoucos (Myrica faya) se deixa engalanar por trepadeiras como a Rubia peregrina e a salsaparrilha (Smilax aspera). E há ainda os musgos, os líquenes e toda a vegetação herbácea.

Isto, porém, é só uma ténue amostra dos tesouros que se encontram naquela ínfima parcela das matas nacionais que é ocupada pelo pinhal manso. O Pinhal do Rei encontra-se dividido por aceiros e arrifes numa malha de rectângulos paralelos à linha costeira, cada um deles com cerca de 400 metros de largura por 880 metros de comprimento. Haverá uns 310 destes rectângulos. O pinhal manso, que fica situado uns 5 km a nordeste de São Pedro de Moel, estende-se por dois ou três rectângulos contíguos, mas a sua área não deverá exceder a de um único rectângulo. Dito de outro modo, o pinhal manso perfaz 0,32% do Pinhal do Rei: 35,2 hectares de um total de 11000.

O que este pinhal manso tem de especial é ser anterior à grande plantação de pinheiros-bravos que terá começado no tempo de D. Dinis. Por nos dar uma amostra de como era, em tempos imemoriais, a paisagem destes lugares, o pinhal manso é uma relíquia única; e, sendo embora pequeno, está tão pouco adulterado que talvez não haja, em Portugal, qualquer outro bosque natural de pinheiros-mansos que se lhe possa comparar.

A beleza deste conjunto de árvores forma um quadro digno de se ver, e o bosque seria uma preciosidade mesmo que só tivesse pinheiros-mansos. Mas a eles vieram juntar-se muitos arbustos: os mesmo que acima listámos e ainda carrascos (Quercus coccifera), folhados (Viburnum tinus) e medronheiros (Arbutus unedo). E este ecossistema riquíssimo, em plena maturidade, é também abrigo para numerosas aves de rapina.

Ainda decorrerá a eleição das sete maravilhas naturais de Portugal? E serão mesmo sete? Seja lá como for, deixamos aqui registado que este pinhal manso é o nosso candidato e que é dele o nosso voto.

18.3.10

Pickle Cactus



Delosperma echinatum Schwantes

A designação desta planta tem uma história curiosa. Esteve no género Mesembrianthemum, termo inventado em 1684 por Breyne e que deriva do grego mesembria (meio-dia) e anthemon (flor), em alusão ao facto de as suas espécies então conhecidas só abrirem a flor a essa hora do dia. Quando se descobriram outras com floração nocturna, o nome do género tornou-se obsoleto e Dillenius, em 1719, habilmente renomeou-o Mesembryanthemum. Mudando o i para y, alterou a derivação para o grego mesos (meio), embryon (embrião) e anthemon, referindo-se agora à posição do ovário. Este grupo dividiu-se entretanto em numerosos subgéneros, como o Delosperma (de N.E. Brown, em 1925), denominação que abriga umas 170 espécies e se baseia nas características do fruto: a combinação dos termos gregos delos (visível) e sperma (semente) indica que a cápsula que contém as sementes não tem tampa, deixando-as expostas.

A floração desta suculenta - não é um cacto, apesar das folhas tomentosas e do epíteto echinatum (como um ouriço) - é longa mas o horário de abertura das flores é rígido (do meio-dia ao fim da tarde) e a ameaça de céu geralmente muito nublado fá-las encerrar o expediente. Mantendo-se firme neste princípio, e engrossando os caules e as raízes sempre que se sente fragilizada pelo ambiente, vive calmamente uns vinte anos ainda que em zonas altas (onde podem ocorrer neblinas matinais, acentuadas descidas da temperatura mínima e formação de geadas) ou em locais com risco de incêndios. Mas precisa de um recanto soalheiro, solo bem drenado e muita água, perecendo facilmente sem uma rega regular. Por isso as folhas estão pejadas de borbulhas, vesículas que retêm água para as emergências, uma solução que os cactos abreviam nos espinhos.

Na África do Sul, de onde é nativa, faz parte do cabaz das plantas que trazem boa sorte. Os guerreiros zulus acreditam no seu poder de previsão das investidas do inimigo e de protecção nas batalhas, bastando para tanto um banho aromatizado com esta planta.

17.3.10

Goivo engelhado


Matthiola sinuata (L.) R. Br.

As dunas são alojamento frágil, uma varanda que se move com o siroco impedindo que os inquilinos descansem no sofá. Um éden, porém, para os que se enfadam com a rotina e anseiam por aventuras no dorso remansoso de um camelo ou com uma cabrinha pela corda.

Há ainda poucas flores nas dunas. As da giroflée-des-dunes, perfumadas e de um matiz lilás invulgar, recordam-nos que estes potenciais desertos à porta não servem os piratas mas resguardam alguns tesouros. Mesmo sem flores, esta herbácea bianual da bacia mediterrânica e ilhas Canárias é vistosa. As folhas de margens onduladas (sinuatas) são obra de capricho que o veludo de uma lã espessa protege do efeito abrasivo da areia enquanto capta o vapor de água circundante. As flores não têm estilete, unindo-se as quatro pétalas num tubo longo adequado à polinização por borboletas.

Do naturalista italiano Pier Andrea Mattioli (1500-1577 ab incarnatione), a história guarda testemunhos contraditórios. Publicou, em 1544, uma tradução italiana, a partir do grego, de cinco volumes de De Materia Medica - obra de Dioscórides centrada no poder medicinal de numerosas plantas - que Mattioli enriqueceu com vastos comentários e reproduções de Giorgio Liberale, e a que juntou, em 1548, a tradução do sexto livro sobre remédios contra venenos. Uma obra que atingiu os 32 mil exemplares vendidos, numa altura em que era prodigioso esgotar-se uma edição de 500. A fama rendida por tal feito trouxe ao autor o mecenato do então imperador da casa da Aústria, o contributo de outros botânicos que de boa vontade lhe cederam exemplares para estudo, e a direcção do Jardim Botânico de San Marco, em Florença. Mas, enquanto à sua volta se aferiam dados e experiências que viriam a conduzir a uma abordagem científica da flora (liderada por Andrea Cesalpino), desligando a sua importância da eventual utilização, Mattioli manteve-se alheio a este esforço e essa é a censura mais pertinente à sua contribuição. Esquivo à mais fina garoa e eterno promotor pessoal, enredou-se em querelas e actos de vingança aos detractores dos seus textos e desenhos. Era determinado mas arrogante, por isso negligente e sujeito a enganos embaraçosos: chegou a publicar uma representação invertida de uma planta que nunca vira, com base numa mera descrição oral; e a destruir, por descuido, colecções preciosas. Morreu num surto de peste que nenhum dos remédios descritos nas suas obras pôde debelar.

16.3.10

Erva de chupar alecrim


Orobanche latisquama (F.W. Schultz) Batt.

Se não fosse a necessidade de propagar a espécie (essa sujeição ao futuro que está inscrita no código genético de todos os seres vivos), esta planta nunca seria vista à luz do sol. Porque luz do sol é justamente uma coisa que não lhe serve para nada. A planta não tem clorofila, fotossíntese é coisa que nunca aprendeu a fazer, e por isso não tem como produzir o seu próprio alimento. Para sobreviver, finca-se nas raízes de alguma outra planta e desata a chupá-las. São as hastes florais que lhe traem a presença: durante três ou quatro meses em cada ano, a partir do final de Março, ei-las a espreitar uns 20 a 60 centímetros acima do solo, aguardando que as abelhas façam o seu serviço. As minúsculas sementes podem ficar dormentes durante muitos anos, germinando só quando alguma potencial hospedeira se põe a jeito. Fica assim assegurada a continuidade da espécie e desse modo parasita de viver.

Como todas as do género Orobanche, a planta não tem pinga de verde, mas não é inteiramente correcto dizer que não tem folhas. Na base das flores há umas membranas de cor leitosa com o bordo castanho: são brácteas, ou folhas modificadas. É a elas que se refere o epíteto latisquama, que sublinha o facto de nesta espécie tais brácteas serem muito largas.

Ser parasita não obriga uma planta a abdicar de gostos refinados: as ervas-toiras (nome vernáculo para o género Orobanche) não aceitam tudo quanto lhes caia no prato. A O. hederae, por exemplo, recusa-se a vampirizar outra coisa que não seja a hera. A O. latisquama não será um caso tão extremo de especialização - consta que também se alimenta de plantas do género Cistus -, mas na Serra dos Candeeiros parece associar-se exclusivamente ao alecrim (Rosmarinus officinalis).

Haverá umas 28 espécies de Orobanche na Península Ibérica, 16 delas presentes em Portugal. Tirando uma saltada às ilhas Baleares, a O. latisquama tem uma existência confinada aos territórios continentais de Portugal e Espanha.

15.3.10

Branco da China


Pinus armandii Franch.

Enquanto as outras árvores não acordam, é altura de olharmos para os pinheiros. Imunes à sucessão das estações, não é deles que devemos esperar a surpresa de uma vestimenta nova. Apetece-nos culpá-los pela monotonia da paisagem, mas isso é esquecer os eucaliptos. Se os eucaliptais, em Portugal, são desertos verdes, os pinhais, pelo contrário, abrigam por vezes uma biodiversidade surpreendente. Afinal, os pinheiros, ainda que disseminados por acção humana muito para além da sua área de distribuição natural, não são estranhos à nossa flora. Os eucaliptos é que são os verdadeiros alienígenas.

Espontâneas em Portugal só há três espécies de Pinus: o pinheiro-manso, o pinheiro-bravo e - restrito a uns poucos locais no extremo norte do país - o pinheiro-silvestre. Algumas outras espécies encontram-se, sempre em escasso número, representadas num ou noutro jardim público. O Jardim Botânico do Porto, em particular, alberga uns quantos pinheiros exóticos que parecem ser raridades no nosso país. Um deles, que mostrámos em fascículo anterior, é o Pinus bungeana, tão oriental como o Pinus armandii que hoje aqui trazemos.

Um nome possível para o Pinus armandii, traduzido da designação inglesa, é pinheiro-branco-da-China, mas a origem geográfica da árvore também autorizaria os nomes pinheiro-branco-do-Tibete e pinheiro-branco-de-Burma. Já o adjectivo branco tem uma justificação menos imediata. O que acontece é que o género Pinus é geralmente dividido em três subgéneros; e os pinheiros do subgénero Strobus, no qual se incluem o P. armandii e o P. wallichiana, são conhecidos como pinheiros-brancos, designação talvez motivada pela cor ou textura das suas madeiras.

O Pinus armandii é uma árvore de pequeno ou médio porte que não excede os 20 metros de altura. Exibe um tronco liso que tende a ganhar fissuras com a idade. As agulhas, em molhos de cinco, são pendentes e brilhantes, de um verde intenso, e têm de 10 a 20 cm de comprimento. Comprimento semelhante têm as pinhas de formato cónico, como a que vemos aí em cima, já madura, aninhada entre as folhas secas tombadas da mesma árvore.

13.3.10

Para sentir seu leve peso


Orchis anthropophora (L.) All. [sinónimo: Aceras anthropophorum (L.) R.Br.]

      Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol
empoleirado no dedo. Mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria.

Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.

Marina Colasanti, Um espelho de Marfim e Outras Histórias (Figueirinhas, 2004)

12.3.10

O vento e os salgueiros


Salix atrocinerea Brot. [em cima os amentilhos femininos, em baixo os masculinos]

As árvores europeias mais comuns não se destacam pela floração vistosa. Muitas delas confiam ao vento o trabalho de polinizar; e, como ele não é caprichoso e faz o serviço de graça, não há razão para tentar seduzi-lo. As flores masculinas surgem em cachos pendentes e flexíveis - os amentilhos - que foram feitos para dançar ao vento, largando o pólen enquanto se saracoteiam. As flores femininas, por seu turno, quase não se vêem: basta que estejam lá, abertas para receber esse pó fecundo que tantas alergias nos provoca. Carvalhos, bétulas, avelaneiras e amieiros, todos eles optaram por esse modo de reprodução que dispensa a ajuda das abelhas e de outros insectos diligentes.

À primeira vista, os salgueiros (género Salix) fariam igualmente parte do clube das árvores auto-suficientes. Afinal, as suas flores também vêm dispostas em amentilhos, e não são particularmente chamativas nem pela cor nem pelo cheiro. Existem, porém, duas diferenças cruciais: os amentilhos não são flexíveis, e há-os de dois tipos, masculinos ou femininos. É que os salgueiros são dióicos, querendo isto dizer que há árvores dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. Os amentilhos masculinos não se balançam ao vento, e os femininos não se esforçam por passar despercebidos. A revelação de que os salgueiros são polinizados por abelhas e mariposas não surge assim como surpresa. E há recompensas para garantir que os bichos cumprem a tarefa de bom grado, pois tanto as flores femininas como as masculinas estão equipadas com nectários. Tirando isso, umas e outras adoptaram um formato minimalista: as masculinas são quase só estames, e as femininas reduzem-se aos ovários.

A dispersão das sementes é a fase do ciclo de vida dos salgueiros em que eles pedem ajuda ao vento. Para melhor esvoaçarem, as diminutas sementes vêm envolvidas por pêlos sedosos. É o contrário do que sucede com os carvalhos: embora eles sejam polinizados pelo vento, as bolotas que produzem nada têm de aerodinâmico. E há ainda outras árvores, como os choupos e os plátanos, que usam os bons ofícios do vento em todas as fases da sua propagação.

Com a sua copa baixa e arredondada, o salgueiro-preto (Salix atrocinerea) é um dos salgueiros mais abundantes no nosso país, formando bonitas galerias ao longo de rios e de outros cursos de água. É também, por florir precocemente, uma importante planta melífera numa altura do ano em que são escassas as flores. Já o tínhamos mostrado em Santo Tirso acompanhando as curvas do rio Ave. Corria então o mês de Fevereiro e a floração estava no auge, mas agora que Março vai embalado já não sobram muitos dias para ver o espectáculo. Uma observação atenta de uma fiada destes salgueiros permite, mesmo ao longe, diferenciar o amarelo das copas masculinas do verde das femininas.

As fotos de hoje foram tiradas na freguesia do Campo, em Valongo, ao fundo de uma elevação onde se instalou uma grande pedreira para extracção de xisto. Curiosamente, os salgueiros não colonizaram as margens do rio Ferreira, mas apenas as de um magro ribeiro - pouco mais que um fio de água, inteiramente escondido pelas árvores - que nele ali desagua.

11.3.10

Chícharo-de-folhas-grandes


Lathyrus latifolius L.

A ervilha, o feijão e o tremoço são sementes suficientemente distintas, em formato e sabor, para a natureza lhes juntar uma média igualmente nutritiva: o chícharo (Lathyrus sativus L.). É um grão de paladar suave que combina bem, no capítulo gastronómico, com quase tudo, doce ou salgado. Já foi alimento de pobre, bicho e gente, quando estes se sustentavam das plantas de cultivo fácil - e o chícharo prefere, sem regatear, terrenos calcários, é muito resistente a secas e não precisa de amanho diário. Com tal estigma, passados os anos de guerra e de fome, foi arredado da mesa e da memória. Voltou aprimorado, virtuoso mas ainda barato, como ingrediente de um vasto manancial de receitas de gourmet e com honra de festival nas Terras de Sicó.

O chícharo (do latim ciceru; a palatalização inicial e no interior do vocábulo deve-se a influência moçárabe) é uma leguminosa anual, de origem desconhecida mas naturalizada na região mediterrânica e aqui tão bem adaptada que chega a ser infestante. Tem caules ligeiramente alados e folhas pinadas com dois folíolos de 3 a 9 cm. As flores são solitárias e nascem azuis no Verão, murchando brancas com delicada venação roxa.

A herbácea da foto, nativa do sul da Europa, é prima do chícharo mas é perene e tem uso ornamental. É uma trepadeira vigorosa com caules de asas largas (vêem-se no topo superior direito da primeira foto) onde alternam folhas pinadas, de dois folíolos oblongos e grandes (mais de 10 cm), que terminam com uma gavinha e são alindadas na base por uma estípula. A inflorescência axilar reúne, do Verão ao Outono, cerca de vinte flores de cinco sépalas e cinco pétalas acuminadas, desiguais, de cor rosa-aveludado: uma superior como uma vela à banda, duas laterais e uma quilha mosqueada de branco que protege 10 estames, o estilete e o ovário. A polinização está a cargo de abelhas; o fruto é uma vagem.

O nome génerico Lathyrus etiqueta cerca de 160 espécies da Europa, do oeste da Ásia, da África oriental e da América do Sul, cabendo ao nosso continente umas 50. Nestes tempos de regalias económicas, de uma saciedade que beira o fastio, a espécie que recebe mais atenção dos horticultores, por ser perfumada, é a ervilha-de-cheiro (L. odoratus L.), de que se conhecem numerosos cultivares de jardim, em quase todas as cores (excepto amarelo), alguns bicolores, sarapintados ou de pétalas onduladas como folhos de cetim.

10.3.10

Recado da Primavera


Primula veris L. [fotografada em Inglaterra]

Primaveras é como por cá chamamos às plantas do género Primula, de que já aqui mostrámos a única representante na flora espontânea portuguesa. De resto, prímulas temos muitas, e muito coloridas, nos canteiros de flores sazonais que ainda não foram abolidos em favor das calçadas de granito. Plantas de floração precoce, são elas que asseguram os serviços mínimos da jardinagem pública durante o Inverno. Mas essas produções viveiristas, por muito que nos encantem, não nos compensam da tristeza de sermos o único país da Europa onde a Primula veris (cowslip em inglês) não quis viver. Afinal os nossos problemas não se reduzem ao PIB e ao défice orçamental, pois também no que às prímulas diz respeito ocupamos a cauda do pelotão europeu.

Também em latim existem os falsos amigos que fazem tropeçar quem se inicia numa língua estrangeira. Assim, o epíteto veris não nos informa de que esta é a única prímula verdadeira, mas sim de que floresce na Primavera. Sirva de consolação a quem pratique tradução fonética e outras tropelias linguísticas que os franceses, neste caso, meteram o pé na argola: primevère vraie é um dos nomes que eles dão a esta planta (o outro é coucou).

A Primula veris - que é a flor-símbolo de três condados ingleses (Northamptonshire, Surrey e Worcestershire) - partilha com a Primula vulgaris um gosto por bosques e prados, embora tenha tendência a escolher habitats mais soalheiros. Nos locais onde ocorrem ambas as espécies, é comum formar-se o híbrido Primula veris X vulgaris, com flores de um amarelo pálido que é um meio-termo entre o tom vivo da P. veris e o desbotado da P. vulgaris, agrupadas em umbelas no topo de hastes mais curtas do que as da P. veris (estas atingem os 25 cm de altura).

9.3.10

Narcisos da pedra branca


Narcissus calcicola Mendonça

Este é um narciso endémico de Portugal, e não está em risco de extinção. O que não significa que não esteja ameaçado. São escassos os livros que o mencionam, e a sua área de distribuição também é reduzida, embora haja populações abundantes em locais protegidos: só se encontra no Algarve, na Arrábida, e no Maciço Calcário Estremenho (de Montejunto a Sicó). Está legalmente salvaguardado por decreto-lei e directiva europeia, mas não resistirá à extracção descuidada de inertes nem à pressão urbanística.

A flor é pequenina mas tão amarela que é fácil avistá-la escondida nas fendas de rochedos calcários ou baixinha em solos húmidos de azinhais. É um geófito (as gemas de renovo são subterrâneas) bolboso que pode chegar aos 30 cm de altura e cuja floração, como a do N. bulbocodium L. e a do N. triandrus L., se inicia no Inverno.

O botânico Francisco de Ascenção Mendonça (1889-1982) foi docente na Universidade de Coimbra e investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical, em Lisboa. Nos anos 40 do século passado, iniciou, com João de Carvalho e Vasconcellos - e a cooperação de um grupo de finalistas do Instituto Superior de Agronomia (ISA) e de uma equipa de diligentes colectores -, um projecto pioneiro sobre a diversidade botânica duriense. Herdeira dessa pesquisa é a obra Flora da Região Demarcada do Douro, de António Crespi, Adriano Castro e Sónia Bernardos (Mirandela, 2005), um tratado científico que assume uma preocupação legítima com a preservação dos nossos depauperados recursos naturais.