31.12.07

Quem te viu


Eryngium maritimum

Um planta em fim de vida, como este esquelético cardo-marítimo, pode funcionar como metáfora do ano que termina logo à noite, exactamente antes de rebentarem os primeiros foguetes. Mas este exactamente é, como se sabe, pura convenção: depende não só do fuso horário, mas também de se ter estabelecido, no mundo ocidental, o dia 1 de Janeiro como o primeiro de cada ano. Se a elíptica peregrinação da Terra em volta do Sol nos obriga a aceitar cada período de 365 dias como um importante intervalo cronológico, nenhum fenómeno natural nos indica em que dia devemos iniciar a contagem. Os supersticiosos das datas e dos horóscopos, se dessem ouvidos a estas singelas razões, nada teriam a temer das passagens de ano, e nem sequer das passagens de milénio (além de deixarem de acreditar em horóscopos). Mas também de pouco adianta desafiar com fria lucidez as crenças e convenções com que todos se governam. É pois com feliz resignação que nos juntamos à festa pela melhor das razões: é que logo à meia-noite começa um novo ano - e ainda bem, pois o de 2007, gasto como está, já deu quanto tinha a dar.

30.12.07

Mundo em balanço

«What is right with the world is the world. In fact, nearly everything else is wrong with it. This is that great truth in the tremendous tale of Creation, a truth that our people must remember or perish. It is at the beginning that things are good, and not (as the more pallid progressives say) only at the end. The primordial things - existence, energy, fruition - are good so far as they go. You cannot have evil life, though you can have notorious evil livers. Manhood and womanhood are good things, though men and women are often perfectly pestilent. You can use poppies to drug people, or birch trees to beat them, or stones to make an idol, or corn to make a corner; but it remains true that, in the abstract, before you have done anything, each of these four things is in strict truth a glory, a beneficent speciality and variety. We do praise the Lord that there are birch trees growing amongst the rocks and poppies amongst the corn; we do praise the Lord, even if we do not believe in Him. We do admire and applaud the project of a world, just as if we had been called to council in the primal darkness and seen the first starry plan of the skies. We are, as a matter of fact, far more certain that this life of ours is a magnificent and amazing enterprise than we are that it will succeed.»
G. K. Chesterton (1910)

29.12.07

apontamentos

1-Muito apreciada a prendinha que me veio parar às mãos, chegadinha da ilha: o livro sobre Dragoeiros do Museu do Vinho que o Paulo já aqui referira. A fotografia do "bleeding dragon's heart" foi tirada no Botânico do Porto numa tarde de Maio.


2- De passagem pelo horto fiquei de olho numas Coprosma (que variedade de cores e que folhinhas brilhantes tão bonitas) e numas Gaultheria procubens (carregadinhas de frutos vermelhos); pelos vistos estas últimas, para além de ornamentais, são também medicinais e aromáticas. Vão ambas para a minha "wish list";-)


3- E para não terminar em beleza: o Pedro Santos anuncia no seu blogue o início da "época da estupidez "! Como ele escreve, começou o período «da "dendrofobia" e do "arboricídio", a partir de agora e até ao início da Primavera qualquer motivo é válido para decepar uma árvore!... Lutamos contra uma cultura de ignorância, de medo (o eterno receio que as árvores nos caiam em cima!...) e de conformismo perante este terrorismo arbóreo patrocinado pelas autarquias.»
Uma luta infeliz em que estamos juntos.

(...)

28.12.07

Escola do Porto

É um lugar-comum dizer-se que a Avenida da Ponte (Av. D. Afonso Henriques na toponímia oficial), no Porto, é uma ferida aberta na freguesia da Sé: é-o desde 1952, ano em que o bairro foi esventrado para se abrir uma ligação rodoviária desafogada entre a estação de São Bento e a ponte D. Luís. Agora que no tabuleiro superior da ponte só passa o metro, a avenida perdeu muita da sua importância para o tráfego automóvel. Teria sido bom aproveitar a ocasião para estreitar a rodovia e reconstruir, com materiais modernos, parte do casario demolido há meio século. Contudo, algo se ganhou: com a eliminação de duas ruelas secundárias paralelas à avenida, cada uma do seu lado, criaram-se nas suas margens dois espaços ajardinados bordejados por largos passeios.




Ganhou - ou poderia ter ganho. O jardim que a Metro do Porto aqui fez construir faz irresistivelmente lembrar o novo Jardim do Marquês, que é outra empreitada da mesma empresa: é a mesma terra nua e excrementícia, aqui e ali decorada com garrafas, papéis e outros detritos; tal como no Marquês, houve uma tentativa de a cobrir parcimoniosamente com vegetação (neste caso hera), que aqui igualmente não vingou. Há um eficiente sistema de rega que mantém a terra encharcada, pronta a acolher a sementeira que nunca há-de vir. Não há flores, não há arbustos, não há nada. Não há sombra de árvore a crescer em nenhum dos avantajados passeios. Há oito magnólias trémulas de susto que se juntaram encolhidas num canto: nunca esperaram viver em lugar tão feio.

Dadas as semelhanças entre estes dois espaços verdes, o transeunte desprevenido pode julgar-se perante mais uma obra de Souto Moura, principal arquitecto da Metro do Porto, mas de facto o jardim da Avenida da Ponte é criação de Siza Vieira. A confusão é perdoável, pois além de terem já colaborado um com o outro em intervenções como a da Avenida dos Aliados, os dois arquitectos são figuras de proa da celebrada escola de arquitectura do Porto. Escola essa que, como se vê, extravasou da concepção de edifícios para o desenho do espaço público - e que, nesse particular, em especial no que toca ao planeamento de jardins, mostra um grau de inépcia tão inacreditável que roça o virtuosismo.

27.12.07

«When we see the beauty of the snow, when we see the beauty of the full moon, when we see the beauty of the cherries in bloom, when in short we brush against and are awakened by the beauty of the four seasons, it is then that we think most of those close to us, and want them to share the pleasure. » (Yasunari Kawabata)
read in Yukiguni , a blog with photographs by Daniela and Erika Kato


Perfume de Inverno



The walkway was bathed in moonlight, and I could not bring myself to tread on the sparse shadows of those flowers.

Lu You (1125-1210, poeta chinês do período Song)



Chimonanthus praecox

A administração celeste atribui a cada flor uma época certa de floração, e qualquer interferência neste calendário determinado em concílio de fadas-madrinhas é fonte de desdita. Naturalmente supreende-nos que algumas plantas se dispam em pleno Inverno e depois, atrevidas como a chinesa Chimonanthus praecox, embelezem o tronco nu com flores cerosas perfumadas a mel. Mas é por essa floração precoce e extraordinária que a flor-de-Inverno merece o lugar exclusivo que a simbologia oriental lhe reserva. Nesta pintura de Chen Shu (1735), reproduzida da obra The garden plants of China, de Peter Valder, ela surge associada aos bons-augúrios do Ano Novo, no topo de um arranjo de plantas auspiciosas, a anunciar a chegada de um tempo puro e rejuvenescido, com a Primavera já aí à esquina.

Crê-se que o primeiro europeu a reparar nesta planta tenha sido o jesuíta Alvaro de Semedo, que a menciona na sua obra Relatione della Grande Monarchia della Cina (1643) como lamei, a flor do 12º mês.

Este exemplar é do Jardim Botânico do Porto; há outro de menor porte no terraço das magnólias do Jardim Botânico de Coimbra; e outro mais jovem no jardim do Palácio de Cristal.

25.12.07

Árvores velhas



Jardim de São Lázaro - Porto

Em Junho de 2004, era o Porto governado por uma ecuménica coligação de esquerda-direita, caiu uma tília na Praça da República, escaqueirando cinco carros lá estacionados. A árvore aguentou enquanto pôde para tombar durante a noite sem atingir pessoas, mas foi-lhe arboreamente impossível não destruir bens. O vice-presidente da Câmara atribuiu as culpas da ocorrência ao vereador do ambiente, de cor política diversa da sua, e exortou-o a garantir que mais nenhuma árvore cairia na cidade. Mesmo um cristão praticante se teria irritado com a desmesura da exigência: se até Deus, com expediente há muito montado para tais pedidos, é incapaz de lhes dar despacho satisfatório, que pode um mortal fazer numa época em que os milagres passaram de moda? Para piorar as coisas, é de crer que o vereador a quem o outro exigia poderes de taumaturgo fosse ateu por credo político.

Mas o vereador desafiado não se deixou ficar. Lançou uma campanha de urgência para diagnosticar a saúde das árvores de grande porte em jardins e arruamentos; como resultado, mais de 50 árvores foram abatidas: na Ramada Alta, na Praça da República, no Largo da Lapa, na Rua D. Manuel II, na Rua do Campo Alegre, etc. A campanha desde então não mais parou, mesmo tendo havido eleições e mudado o vereador. Fomo-nos habituando a ver os restos decepados de grandes árvores a atravancar passeios e jardins. Educados pelo hábito, já nem perguntamos porquê. Estavam doentes, eram um perigo para pessoas e bens. Embora às vezes nos perturbe a dúvida: aquela tília na Praça Filipa de Lencastre estava mesmo debilitada, ou foi a requalificação da praça que ditou o seu sacrifício? Chegou agora a vez das monumentais tílias do Jardim de S. Lázaro: duas foram cortadas na semana passada, e não sabemos se as duas que permanecem de pé serão poupadas. A perda destas árvores destrói irremediavelmente - durante um prazo pelo menos igual ao da vida que nos resta - o equilíbrio e o aconchego do jardim.

Em Outubro de 2007, a Sociedade Portuguesa de Arboricultura (SPA) organizou, no Parque Biológico de Gaia, um simpósio sobre Árvores Velhas. Houve convidados nacionais e estrangeiros, e uma saída de campo de um dia inteiro para observar de perto algumas dessas venerandas árvores. Custa a acreditar que, na região do Porto, tenha sido possível cumprir cabalmente esse ponto do programa. Para as nossas autarquias, as árvores adultas não são seres dignos de admiração, mas sim ameaças a abater. Se lhes avaliam a saúde, não é para lhes acudir com algum tratamento que lhes prolongue a vida: é para justificar a sentença de morte. Daí que árvores velhas (melhor seria chamar-lhes árvores anciãs, tradução mais sugestiva do inglês ancient trees) como as que serviram de pretexto ao simpósio sejam por cá quase inexistentes.

Mas esse encontro poderia ter assinalado uma mudança de atitude: afinal, a SPA reúne muitos dos técnicos que, nas autarquias, decidem da vida e da morte das árvores. Talvez eles se sentissem embaraçados por terem poucas ou nenhumas árvores velhas para mostrar aos visitantes. Talvez aprendessem que, além da fitossanidade, há outras considerações (afectivas, paisagísticas, ambientais) que devem ser ponderadas quando se avalia uma árvore. O abate das tílias de S. Lázaro mostra porém que, desse ponto de vista, o simpósio de pouco serviu.

24.12.07

O que vale


- Psst... O que fazemos aqui? Hoje ninguém lê blogues...
- Somos a prenda.


«Estive pensando no que lhe dar de Natal, querida. Pensei numa ilha. Uma ilha inteira, com casa e ancoradouro. Ou, se você preferisse, heliporto. Mas aí pensei: você se sentiria obrigada a ir sempre à sua ilha. Ter uma ilha não é como ter, assim, um castelo no Loire ou um apartamento em Miami, que você pode ir ou não ir, tanto faz. Uma ilha inteira seria um compromisso, você se sentiria obrigada a ir sempre. Eu não estaria lhe dando um presente, estaria lhe dando um remorso. Um remorso magnífico, é verdade, com pavões e águas verdes, talvez um pequeno vulcão, mas um remorso assim mesmo. Também descartei o castelo no Loire e o apartamento em Miami. Banalidades, não.

Pensei num cruzeiro marítimo, a volta ao mundo num transatlântico só seu, 17 restaurantes, quatro orquestras, 10 piscinas e quinhentos marinheiros só para servir você, mas aí pensei: dar a volta ao mundo, do jeito que o mundo está? Desisti do transatlântico e nem pensei num avião privê, porque aviões, por maiores que sejam - você não concorda? - mal têm espaço para as pernas, o que dirá sauna, piscina e cabeleireiro.

Pensei num Rolls Royce blindado, com bar e pianista, daqueles que o motorista tem motorista, ou então num Mercedão prateado, forro de pele de lhama hermafrodita, alojamento separado para a criadagem, academia opcional, mas aí pensei: carros, com esse trânsito? Eu só estaria lhe dando chiliques.

Pensei num conjunto de diamantes, mas... Jóias? Pinturas? Antigüidades? A coleção completa de um costureiro famoso e o costureiro junto, para fazer os ajustes? Muito óbvio. Um casaco de pele? Muito incorreto. Eu não gostaria de ver você perseguida na rua por defensores, ou parentes, do animal sacrificado. Um perfume caríssimo? Muito evanescente. Pensei em lhe dar um chapéu, uma bolsa, um lenço, um guarda-chuva... E finalmente decidi: uma agenda, para as suas anotações. Mas então pensei: ela vai fazer anotações na agenda com quê? Vou lhe dar uma Bic. Uma singela Bic, como prova do meu amor. É quase nada, eu sei. Mas como diz aquela frase, o que vale é a intenção, e a minha intenção era... Querida, onde você vai? Querida!»


Luis Fernando Verissimo

23.12.07

Dicentra formosa



......Cai um sino do pinheiro de natal.
......Por muito menos se foge de casa
......de seus pais. Agachados sob o leque
......das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
......são fáceis de engolir. Sem saber,
......já chegámos ao escuro.
......Só nos falta pôr o til na palavra solidão.


José Miguel Silva, Vista para um pátio (2003)

21.12.07

Sobreiros e acácias na Penha



Sobreiros (Quercus suber) no monte da Penha (Guimarães)

Há vários modos de subir à Penha, em Guimarães. O mais cómodo, não isento de sustos para quem sofre de vertigens, é pular a bordo de uma das planantes cabines de teleférico que sobem e descem a encosta num vaivém ininterrupto. É essa a maneira barata de nos sentirmos como pássaros voando sobre as árvores, mas sem a liberdade de pousarmos nalguma que nos pareça mais convidativa. Vão rareando os eucaliptos à medida que subimos, até que por baixo de nós se estende uma mata contínua de grandes carvalhos-alvarinhos. Pena não subirmos a pé, a corta-mato, para tocarmos nessas árvores e nos sentirmos pequenos debaixo delas; só que, como o teleférico sobrevoa várias propriedades muradas, um tal feito afigura-se improvável.

Há ainda a opção de subir de carro: a estrada que vem do centro de Guimarães é estreita, cheia de curvas e com as bermas desniveladas, e obriga-nos a conduzir com cautela; mas, com todas as suas voltas, dá a quem a percorre uma ideia mais justa da riqueza e amplitude da manta de arvoredo que reveste o monte. Nunca antes tínhamos notado, por exemplo, o extenso sobreiral que se desenrola na encosta a sudoeste do santuário. Foi para lá que nos dirigimos, monte abaixo, depois de aparcarmos, por ser esse um mais promissor lugar para encontrarmos isto do que os caminhos calcetados a granito que rodeiam o cume. Palpite acertado: encontrámos os Crocus e várias outras flores silvestres junto a um estreito riacho, seco por falta de chuva, mas ainda ressumando uma acolhedora humidade. E constatámos também, infelizmente, como as medidas para controlar as acácias (A. melanoxylon e A. dealbata) foram de uma eficácia quase nula: nalguns pontos os novos rebentos formam já um mato impenetrável. Com uma praga destas não pode haver meias medidas: só com o abate de todas as árvores adultas se impede a reinfestação. A Irmandade da Penha deveria mandar cortar sem demora as acácias que ainda existem em volta do santuário.

20.12.07

Em brasa


Crocus serotinus

.... A verdade é que nunca soube o nome
.... dessa flor que nalguns olhos
.... abre logo de madrugada.
.... Agora para saber é tarde.

Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)

19.12.07

"Árvores de Lordelo do Ouro - Passado e Presente"

Colóquio organizado pelo Núcleo de Defesa do Meio Ambiente de Lordelo do Ouro (NDMALO-GE), no Jardim Botânico do Porto (R. do Campo Alegre, 1191), amanhã, quinta-feira dia 20 de Dezembro com início às 18:30.
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Oradores: Professora Arquitecta Teresa Andersen e Engenheiro Bernardo Sabugosa Portal Madeira (ver
convite)


Fotografias: araucária, plátano e eucalipto de grande porte em Lordelo do Ouro- Dezembro 2003
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«A freguesia de Lordelo do Ouro estende-se por uma superfície de 3,4 Km2 e fica situada na parte ocidental da cidade do Porto, sendo geograficamente limitada a Norte, pela Freguesia de Ramalde; a Sul pelo Rio Douro; a Este, pelas Freguesias de Massarelos e Cedofeita e, por fim a Oeste pelas Freguesias de Aldoar e Foz do Douro.» (ler mais aqui)

18.12.07

Nariz-de-zorra


Silene gallica

São muitos os nomes que a Flora Digital de Portugal atribui a esta herbácea: cabacinha, erva-cabaceira, erva-de-leite, erva-mel, erva-ovelha, gorga e nariz-de-zorra. O último da lista, e nosso preferido, refere-se aos pêlos que cobrem os cálices das flores. Mas a planta é toda ela penugenta e pegajosa, funcionando como armadilha para insectos pequenos: o seu nome em inglês é justamente small-flowered catchfly.

A Silene gallica é uma planta anual de matos e campos de cultivo que germina nos meses frios e está espalhada por toda a Europa. Costumava ser abundante no Reino Unido, mas a eliminação das sebes que dividiam os campos agrícolas e a utilização crescente de herbicidas e fertilizantes, entre outras causas, levaram a uma diminuição drástica das populações. Tanto assim que a sua recuperação foi incluída pelo governo britânico no Plano Nacional de Acção para a Biodiversidade.

E qual é a situação desta planta em Portugal? Por enquanto, pouco tem de rara; faz mesmo parte daquele rol de «ervas daninhas» (ou «infestantes») que agricultores, viticultores, fruticultores, proprietários de campos de golfe ou simples «jardineiros» têm o hábito de encharcar com herbicida: há toda uma gama de venenos à escolha para o efeito, entre eles o Isopec e o Glydus 500SC. Mas, com esta guerra química desenfreada, é de esperar que a prazo desapareçam não só os narizes-de-zorra como também todas as flores silvestres que aqui temos mostrado. Nessa altura Portugal será ainda mais feio e mais triste, mas nenhum ministro do ambiente dará pela diferença.

17.12.07

O primeiro espelho



«O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.

Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.

O criador do espelho envenenou a alma humana.»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

15.12.07

Garden Therapy



«Nós não precisamos de muita terra ou dinheiro para jardinar ou apreciar a natureza.
Deixa-te apanhar pelo "dom gratuito" de algumas das melhores coisas da vida»
in Conviver com a Natureza, texto de Ted O'Neal e ilustrações de Robert W. Alley (ed. Paulinas)

Deliciosos os livrinhos da colecção "Elf Self Help", título prosaicamente traduzido para português como "Minilivros de auto-ajuda", editados pelas Paulinas.
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Gosto especialmente dos que dizem respeito aos jardins e à natureza, como este de que reproduzo uma ilustração e cujo título original é Garden Therapy .
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Um misto encantador de ingenuidade e sabedoria: as personagens destes livrinhos pertencem com toda a certeza ao grupo de amigos do célebre ursinho .

14.12.07

Paixão sem espinhos


Passiflora molissima

Os missionários seiscentistas na América Tropical ficaram tão maravilhados com a flor desta trepadeira que se viram compelidos a interpretá-la como uma mensagem divina: terá sido nela, argumentaram, que Jesus Cristo quis simbolizar o episódio culminante da sua passagem terrena; por isso não puderam senão chamar-lhe flor-da-Paixão (Passiflora em Latim). Nesta extraordinária flor, como escreveu a Maria, «os estaminóides associam-se à coroa de espinhos; os 5 estames às cinco chagas; os 3 estigmas claviformes aos três pregos; e as 10 pétalas aos apóstolos, com excepção dos traidores Judas e Pedro». As fotos que ilustram esse escrito (e estas outras aqui) correspondem melhor a tal descrição do que a Passiflora de hoje, em que a coroa de estaminóides se reduz a um estreito anel. Mas talvez por algum evangelho apócrifo ainda inédito se venha um dia a saber que, em vez de uma coroa de espinhos, Cristo crucificado tinha um simples pano atado em volta da cabeça.

Calcula-se que, não contando com os inúmeros híbridos ornamentais, existam cerca de 500 espécies de Passiflora, e pelo menos 60 delas produzam frutos comestíveis, desde o vulgar maracujá roxo (P. edulis) à granadilha (P. ligularis) que começa a ver-se nas nossas frutarias; mas são ainda poucas as espécies frutíferas consumidas fora do seu local de origem. A P. mollissima, conhecida como maracujá-banana em virtude da forma do fruto, amarelo quando maduro, é uma das espécies comestíveis mais populares: originária dos Andes, desde o norte do Chile à Venezuela, é mais rústica que outras passifloras e suporta muito bem os invernos em climas temperados. Foi incluída, com outras suas congéneres andinas, no subgénero Tacsonia do género Passiflora, caracterizado pelas flores tubulares pendentes, adaptadas à polinização por colibris.

O maracujá-banana faz parte de um clube de má fama: o das plantas invasoras globais, que se espalharam descontroladamente por várias regiões do mundo, subtraindo espaço vital às plantas nativas. Foi declarado como praga no Havai (onde é tido como culpado pela quase extinção de três espécies indígenas), na Nova Zelândia e na África do Sul; nestes três países há programas com vista à sua erradicação. Na floresta de laurissilva da Madeira ele é também um invasor sério, mas não nos consta que lá se tenha procurado combater a sua disseminação.

P.S. Como se lê no comentário aqui deixado por Graça Mateus, a última frase do texto carece (felizmente) de correcção.

13.12.07

Virgem mãe


Limonium sinuatum

A lavanda-do-mar tem algo a acrescentar sobre o polémico dogma cristão que algumas religiões celebram neste mês, e por isso regressa hoje ao palco. A maioria das cerca de 300 espécies do género Limonium são capazes de criar sementes sem terem sido fertilizadas. As sementes só contêm informação genética da mãe, o que é desvantajoso num mundo competitivo que privilegia a diversidade, mas o processo pode também estabilizar características individuais interessantes. Este método é distinto da clonagem, em que o descendente é exactamente igual à mãe; por apomixia nascem indivíduos cuja diferença genética é determinada pelo material contido nos óvulos da mãe, mas não são necessariamente gémeos ou idênticos ao progenitor.

A reprodução assexuada com intervenção apenas feminina é frequente nas famílias Rosaceae e Asteraceae (por exemplo, a amoreira silvestre e o dente-de-leão são apomíticos). Neste capítulo, a novidade do século é a descoberta de plantas, como o cipreste do deserto Saara (Cupressus dupreziana), que produzem sementes exclusivamente do pólen, isto é, da componente masculina da planta que lhes serve de colo.

A versão animal da maternidade assexuada é o nascimento de crias só com a intervenção genética de uma mãe-virgem: é a chamada partenogénese, que difere do hermafroditismo por não haver autofecundação. Eliminada a angústia da falta de varões, é contudo honesto referir que o triunfo é relativo: nas espécies em que o género é determinado por um par de cromossomas, este tipo de reprodução produz uma população monogénica, com baixa potencialidade para gerar variações genéticas e por isso, em princípio, com menor probabilidade de perdurar. Por exemplo, entre as abelhas domesticadas, a rainha é a única da colmeia que é fértil; se ela morre, as abelhas-mestras podem pôr ovos mas, como não acasalam, são mães-virgens de machos - que recusam sobranceiramente fertilizar uma abelha operária. Resultado: em pouco tempo, os trabalhadores desta colmeia extinguem-se e só restam zangões.

Mas há animais que podem alternar a reprodução sexuada com a partenogénese, o que lhes permite aumentar a biodiversidade e sobreviver ao problema ocasional da ausência de pais. São óbvios os benefícios, e o poder, deste esquema de procriação, por isso não nos surpreende que estes monólogos reprodutivos tenham sido incorporados em culturas, mitologias e religiões. A capacidade de certas divindades conceberem sem pecado é, afinal, uma virtude terrena.

12.12.07

Vale do Coronado

Divulgação da campanha
"Salvar Coronado"- Contra a destruição do Vale agrícola do Coronado (Maia-Trofa)
Ver mais no site da Convergir : Tomada de posição - Apoie! -Documentário -Fotografias



«(...) A Convergir é a favor do desenvolvimento, desde que este seja sustentável. Por isso, apesar da alegada importância económica, social e até ambiental deste projecto*, não pode aceitar a sua localização prevista para o Vale do Coronado, tanto mais que existem outras alternativas que devem desde já ser estudadas, para que em sede de processo de Avaliação de Impacte Ambiental, no respeito pelos normativos legais em vigor, possam vir a ser confrontadas e avaliadas. (...) »
.
*Rede Nacional de Plataformas Logísticas que prevê a construção de uma plataforma intermodal, de características urbanas e nacionais, na área do Grande Porto, mais concretamente no Vale do Coronado, em terrenos pertencentes aos concelhos da Trofa e da Maia.

11.12.07

A nova geração



O assunto previsto para este texto era legitimamente botânico, mas a Opuntia, planta da família das cactáceas, fotografada há dias no jardim das suculentas do Botânico, já faz tempo que encerrou a temporada de floração; como aliás fizeram quase todas as suas companheiras. Mesmo com temperaturas desvairadas e chuva irregular, todo o Jardim Botânico se rendeu já ao Inverno improvável que chegará a 21 de Dezembro. Escaparam à letargia geral as camélias, que aqui já explicámos sobejamente, e os gatos, a que não temos prestado a atenção que merecem. Estes dois jovens membros da família já aqui assinalada nem queriam acreditar que era à planta espinhenta e agressiva que eu queria fotografar, e não a eles, meigos, bonitos e pedinchões. Não os enganou a vaidade: de todas as fotos que tirei aos cactos nessa tarde, só se aproveitam aquelas onde eles aparecem. Eis pois a beleza de um jardim sem flores à entrada do Inverno. Ou parte dela.

10.12.07

De saias


Limonium sinuatum

«Por causa das cantigas, dos poemas, dos fados ou do cor-de-rosa das colinas, Lisboa sempre foi mostrada como mulher. Como tal, maquilhou a imagem feminina que com o tempo foi poisando dentro de nós. (...) Apesar da cantoria, quando entrávamos no íntimo da cidade e percorríamos os bairros típicos, logo verificávamos que era o masculino que dominava. Nas Tabernas, nas Sociedades Recreativas, nas Casas Regionais, nos bares ou nos cafés, a cidade era dos homens. Os mais velhos gostavam de contar a surpresa que foi ver na Segunda Guerra as mulheres refugiadas sentarem-se na Suíça ou na Brasileira de perna cruzada a tomar café e puxar do seu cigarro...

Hoje Lisboa é muito mais feminina. Enquanto os homens recuaram até à maior ambiguidade. As mulheres estão muito mais bonitas e insinuantes. Fazem dos seus gestos, dos seus olhares e dos lábios pequenos fragmentos de arte. Não hesitam em dizer frontalmente que já não há homens e, o mais espantoso, é que lhes assiste uma comprovada razão. (...) As mulheres de Lisboa olham agora os homens com uma indisfarçável sobranceria. Rodeiam-nos com o seu sopro e os seus perfumes e sabem que eles tremem. E quanto maior é a copa, mais o arvoredo abana sob o vendaval. E elas sabem que com um pouco mais de sopro, até as mais altas árvores acabam por cair.»

Manuel Hermínio Monteiro, in K, nº 3 (1990)

8.12.07

A ler

As excelentes Crónicas de "A Casa na Árvore" , por Susana Neves na Revista Tempo Livre -INATEL

7.12.07

Coro-a-capela

Diz a experiência dos que cultivam plantas, ou as fotografam, que o amarelo é a cor preferida dos insectos, e as flores sabem disso. Em ambientes de competição mais renhida, ou de maior diversidade de polinizadores, as plantas optam por distinguir-se colorindo as pétalas/sépalas com outros tons atraentes, mas raramente esquecem uma gota de amarelo, nem que seja só no topo dos estames, o lugar do pólen.

O vermelho (coccineus em latim), vivo, trigueiro ou carmesim, vê-se menos, a não ser em bagas que assim previnem do seu carácter tóxico. Parece que as flores também conhecem a conotação pejorativa que as pessoas atribuíram a esta cor. Alguns exemplos, aqui reunidos para atestar a nossa culpa, são embaraçosos: a marca de erro numa correcção de um exame faz-se num humilhante vermelho; por imposição legal, os faróis de perigo, o semáforo que enerva os condutores e os avisos de proibição são vermelhos; a maioria dos elevadores - cuja função útil é a de ascender a carga porque a descer todos os santos ajudam - utiliza um triângulo vermelho para assinalar a descida; a coloração rosada repentina das maçãs-do-rosto é indício de vergonha, pecado ou fúria; e, em várias línguas, os revolucionários, os burocratas rígidos, as mãos criminosas, a situação deficitária de uma conta bancária são etiquetados de vermelho. Até a paixão, que desassossega ou escraviza, é poeticamente rubra. E no sinónimo encarnado há mesmo a alusão à luxúria, impura e sem alma.

Indiferente a esta maldição semântica, nesta época o país finge-se inocente e pinta-se de vermelho, acompanhado por diospiros, romãs, medronhos e azevinhos, e por certo ícone comercial muito popular entre a criançada. A Thunbergia coccinea colabora admiravelmente neste afã natalício. Trepadeira com longos ramos, originária da Índia, Birmânia e Malásia, tem folhas opostas emparelhadas (como mãos em oração) e floresce no Inverno. As flores de centro amarelo e gola escarlate enfeitam agora muros, lembrando palcos recheados de meninos de coro, de vozes sublimes a entoar melodiosos cânticos que enternecem corações. Mesmo os mais avermel... rebeldes.


Thunbergia coccinea

6.12.07

Desavenças familiares




Carpinus betulus

Com as obras de remodelação do Jardim Botânico do Porto, um dos caminhos que seguia quase encostado à auto-estrada, exposto ao constante atroar dos motores, foi desviado e serpenteia agora entre o arvoredo. Não que o trânsito tenha deixado de se ouvir, mas já não se vê tanto; e, se algum carro se despistar, furando a rede de protecção, o risco de atropelamento de quem passeia no jardim é menor. E o visitante acaba por habituar-se à banda sonora do trânsito: o som é permanente, mas oscilante e indistinto como o das ondas do mar, só que desacompanhado da maresia e do horizonte aberto.

O novo caminho põe em destaque as copas magníficas de três ou quatro carpas-europeias: nunca como agora pudemos apreciá-las na sua inteireza, com os longuíssimos ramos, quase horizontais, atravessando-se sobre as nossas cabeças. Como antes já aqui referimos, talvez essa desmesura da copa explique a raridade desta árvore em Portugal: é que os nossos jardins e parques são acanhados; e, em todo o caso, preferimos árvores comedidas - ou que, se o não forem, possam ser reprimidas à força de podas. (Diga-se que há um cultivar fusiforme da Carpinus betulus, tão compostinho que parece feito sob encomenda portuguesa, que começa a ser comum nas nossas cidades: já o vimos em Guimarães na avenida Alberto Sampaio e, no Porto, na estação da Trindade e no Parque da Cidade.)

A que vêm as desavenças familiares do título? É que os livros aqui em casa colocam o género Carpinus em nada menos que três famílias botânicas distintas: ora ele ficaria sozinho na família Carpinaceae, ora se juntaria aos géneros Corylus (avelaneiras) e Ostrya para formar a família Corylaceae, ora, finalmente, optaria, com esses mesmos companheiros, por engrossar a família Betulaceae, onde seria recebida pelas bétulas e pelos amieiros (géneros Betula e Alnus). Não nos cabe, como simples amadores, emitir juízos sobre o assunto, mas apenas registar que o tribunal botânico a quem cabe decidir sobre adopções e parentescos parece inclinar-se de vez para a última hipótese.

4.12.07

La rose et le réséda

Un rebelle est un rebelle
Deux sanglots font un seul glas
Et quand vient l'aube cruelle
Passent de vie à trépas

Celui qui croyait au ciel
Celui qui n'y croyait pas

Louis Aragon, in Le Mot d'ordre (1943)


Reseda phyteuma

Esta planta, que encontrámos em prados de montanha e é espontânea no Mediterrâneo e Ilhas Canárias, tem traços muito bizarros: as folhas têm dois lóbulos pronunciados e parecem em esforço para manter a forma; as flores, com cerca de 5 milímetros de diâmetro, expõem numerosos estames com anteras cor-de-salmão rodeados por pétalas divididas em tirinhas brancas; os frutos são cápsulas abertas com topo triangular.

Contudo o perfume a que rescendem, doce e intenso, é reconhecido, porque um híbrido com a espécie líbia R. odorata é amplamente cultivado para servir a indústria de perfumaria. Atribui-se ao género Reseda, nome que provém do latim resedare (acalmar), virtudes sedativas; e é antigo o uso em tinturaria da R. luteola, o lírio-dos-tintureiros, comum no sul da Europa, de cujas raízes se produz um corante amarelo (ou produzia, antes de existir o amarelo sintético).

No valkirio pode ouvir a interpretação de Barbara Bonney de uma canção de Richard Strauss que fala do perfume de reseda.

3.12.07

Flores vadias


Erodium cicutarium (bico-de-cegonha)

No próximo sábado, dia 8 de Dezembro, a partir das 16h00, estaremos na associação Campo Aberto (rua de Santa Catarina, 730-2º) para apresentar uma reportagem botânica sobre o noroeste português, com mais de 100 fotos documentando a flora espontânea dos nossos bosques e dunas.

Mas outras razões há para os nossos leitores virem à sede da Campo Aberto no sábado. Eis o programa de festas para esse dia:

....15h00 – Lanche
....16h00 – Flores vadias – por Paulo Araújo e Maria Carvalho
....17h30 – Poesia da natureza – por Beatriz Gomes
....18h30 – Espaços verdes do Grande Porto – por Mafalda Sousa e Nuno Quental

2.12.07

Orelhinhas-de-rato


Myosotis discolor

«Tenho a impressão de que os fotógrafos que conheço pessoalmente (os «de arte», evidentemente) andam todos à procura de uma razão, melhor, de uma «filosofia» que lhes explique o porquê da fotografia e lhes forneça um guia para a acção (a de fotografar, claro). Vivemos em tempo de exegetas. Explicar a criação (o criado) tornou-se tão importante (ou mais) do que própria criação. Nunca o aparato crítico-exegético se viu tão apetrechado e com gente tão dotada como hoje. Diremos até, que, nos mais felizes dos casos, a exegese é, só por si, uma verdadeira obra de arte. (...)

Volto aos meus bons amigos fotógrafos para os compreender nas suas preocupações e os prevenir nas suas ambições. Descobrir a fórmula que nos permita - a nós, criadores - repetir os milagres é uma tentação bem humana. Mas não esqueçamos, clique!, bons amigos, que a arte é desregra permanente. Uma fórmula na mão só nos garante que seremos capazes de nos repetir ad infinitum para os basbaques, a começar pelo basbaque que há em nós. Uma fórmula não abre caminhos; fecha caminhos. Deixem que cada um dos vossos momentos felizes não se repita mais.

À parte isso, filosofem como quiserem e descubram, a cada milagre, que não sabem nada, mesmo nada, e que o melhor ainda é repartir sempre do zero.

Cautela, amigos, com o olho mobilado pelo lugar-comum.»

Alexandre O'Neill, Uma coisa em forma de assim (1985)