25.4.17

Madeira Fern Fest (8)


Asplenium hemionitis (à esquerda), Asplenium anceps (à direita), Adiantum reniforme (em baixo)



As ilhas do mesmo mar sempre arranjam modo de se contaminarem uma às outras, e alguns dos fetos peculiares que vimos na Madeira, por muito entusiasmantes que fossem, não eram para nós novidade, tendo-os já encontrado nos Açores ou no Porto Santo. O que é na verdade injusto, pois a flora pteridófita madeirense, singularizando-se pela sua indisfarçável africanidade, não é inferior à açoriana. Como compensação, e quebrando a nossas regra de mostrar cada espécie uma só vez, recuperamos dois fetos macaronésios de vincada personalidade, desta vez fotografados na Madeira, e condimentamo-los com um terceiro que vale pela raridade, embora seja fácil de confundir com outros muito comuns.

Tanto o Asplenium hemionitis (1.ª foto) como o Adiantum reniforme (3.ª foto) se recusam a obedecer ao figurino habitual dos fetos: cada fronde é constituída por uma peça só, em vez de estar dividida em inúmeros pequenos segmentos. O nome vernáculo feto-folha-de-hera atribuído ao primeiro exprime não só uma óbvia semelhança como também uma real possibilidade de confusão, já que o Asplenium hemionitis pode, tal como a hera, agarrar-se aos muros ou atapetar o chão de um bosque com as suas folhas. Tapete curto, claro está, já que as populações deste feto costumam ser pequenas. E a confusão desfaz-se quando lhe espreitamos as pinturas de guerra no verso das frondes. Presente nos Açores, Madeira e Canárias, o feto-felho-de-hera tem também populações reliquiais na Argélia, em Marrocos e... em Sintra, único local do continente europeu onde a sua presença está assinalada.

O Adiantum reniforme, a que gostamos de chamar avenca-redonda, é fácil de encontrar na Madeira, sobretudo na parte norte da ilha, em muros e fendas de rochas, nem sempre em lugares sombrios. Tendo-o visto e fotografado no Porto Santo, já sobre ele aqui escrevemos.

O terceiro feto do nosso ramalhete, Asplenium anceps (2.ª foto), tem óbvios laços de seiva com o avencão (Asplenium trichomanes subsp. quadrivalens), que encontramos de norte a sul de Portugal continental, tanto em calcários como em xistos ou granitos. Um terceiro feto que só com dificuldade se distingue destes dois é o Asplenium azoricum. Sabe-se, aliás, que o A. anceps é um dos progenitores do A. azoricum, que por sua vez terá dado origem a outras espécies ou subespécies do grupo do A. trichomanes. Muitas vezes podemos separar as diferentes espécies usando um simples critério geográfico: em Portugal continental só existe, que se saiba, o A. trichomanes subsp. quadrivalens. Contudo, se estivermos nos Açores, convém fazermos uma análise menos preguiçosa, já que aí coexistem o A. azoricum e o A. trichomanes, e o problema repete-se na Madeira, onde convivem o A. trichomanes e o A. anceps. (Em ambos os arquipélagos ocorre ainda o A. monanthes, mas nenhum amador de fetos minimamente atento o confunde com qualquer um dos outros três.)

A boa notícia é que o A. anceps até é fácil de destrinçar do A. trichomanes por quem for munido de lupa e levar a lição bem estudada. As pinas médias do primeiro são em geral mais estreitas e compridas do que as do segundo; e, no A. anceps, os soros são rectilíneos, afastados do eixo da pínula de modo que as duas fiadas fiquem bem separadas (foto ao lado ou, em melhores condições, nesta página), enquanto que no A. trichomanes os dois soros basais de cada pínula (pelo menos esses) são claramente curvados, e as duas fiadas de soros estão muito próximas uma da outra (fotos nesta página ou nesta).

Como patriarca de uma linhagem de fetos bem disseminada na Macaronésia e na região mediterrânica, o A. anceps acusa o peso da velhice e mostra-se menos adaptável às mudanças do mundo do que os seus descendentes. Embora tenha sido reportado nos Açores, receia-se que esteja extinto no arquipélago. Presente em quatro das ilhas Canárias, em três delas (Tenerife, La Gomera e El Hierro) só se conhece uma população em cada ilha, sendo um pouco melhor a situação na ilha de La Palma. Na Madeira, por contraste, está amplamente distribuído no norte da ilha em lugares húmidos e ensombrados, mas não parece ser tão abundante como afirmam J. R. Press & M. J. Short no livro Flora of Madeira (National History Museum, London, 1994).

19.4.17

Barbusano

Quem aporta à Madeira sente a aragem de um lugar quase africano, o receio das escarpas assombrosas do litoral, o fascínio pelos delicados bordados e o regalo nos pitéus de milho e de peixe-espada. Mas terá de se entranhar nas montanhas para conhecer a ilha a que Camões se refere, no Canto V de Os Lusíadas, através do discurso de Vasco da Gama que, não tendo passado pela Madeira, narra de facto a experiência do próprio poeta:

Passámos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assi se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais célebre por nome que por fama.
Mas, nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe aventajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

Foi pela exuberância vegetal que a Madeira venceu, na comparação de Camões, as ilhas gregas, componentes famosas da civilização helénica. O arvoredo da ilha é ainda hoje notável, mas algumas espécies características dos bosques de laurissilva tornaram-se raras, como o imponente barbusano (ou barbuzano), uma laurácea de copa arredondada e densa, que pode atingir os 25 metros de altura.


Apollonias barbujana (Cav.) Bornm.



Tivemos sorte por, em Dezembro, termos encontrado flores frescas, sendo elas mais dadas a surgir na Primavera. São minúsculas, esbranquiçadas ou verdes, mas as inflorescências em panícula são muito vistosas. Depois delas, vêm umas bagas com feitio de azeitona mas de pé longo, que amadurecem escuras. As folhas ovaladas e glabras, de um verde lustroso, exibem por vezes umas protuberâncias que lembram estruturas semelhantes nas pistácias ou os bugalhos dos carvalhos. No barbusano, estas verrugas são casinhas de insectos feitas de folha, onde eles se resguardam enquanto se alimentam de seiva sem, aparentemente, comprometerem a saúde geral e a sobrevivência da planta.

Endémica dos arquipélagos da Macaronésia (talvez extinta no Porto Santo), da Apollonias barbujana há registo, na ilha de Gomera, de uma segunda subespécie, com folhas mais largas e cuspidadas. O nome do género é dedicado à divindade Apolo, uma das mais intrigantes da mitologia grega: filho de Zeus, com uma irmã gémea (Artemis), é o ideal de beleza atlética e da juventude; reconhecido como deus da poesia e da música, além de ser um oráculo poderoso, tem como símbolo o loureiro ou, se quisermos, qualquer outra árvore da mesma família.

O género Apollonias inclui cerca de dez espécies de árvores e arbustos perenes, embora estudos recentes proponham que o género se limite a uma espécie, a que ocorre na Madeira e Canárias, sendo as outras transferidas para o género Beilschmiedia.

11.4.17

Madeira Fern Fest (7)


Dryopteris aitoniana Pic. Serm.


Os fetos são para quem aprendeu a apreciar a simetria e a simplicidade, e a valorizar os detalhes que marcam a diferença. Fazem um apelo austero ao intelecto, em vez de, como as plantas com flor, seduzirem pela sensualidade do colorido e do perfume. Não foram feitos para estes tempos de atenção distraída e borboleteante, em que somos joguetes de um fluxo ininterrupto de estímulos básicos. Contudo, quem se interesse por plantas deve tentar familiarizar-se com os fetos, pois são muitos os bons encontros que perde se não conseguir reconhecê-los. Se não nos quisermos entregar a um panteísmo acéfalo, convém sabermos distinguir as árvores que compõem uma floresta: nem tudo o que é verde é ouro, e um carvalhal não é o mesmo que um eucaliptal. Ou, falando das ilhas, é imperdoável confundir a laurissilva com um emaranhado de vegetação infestante, como acontece nesta triste foto de São Miguel. Depois de garantirmos que não cometemos tais erros de palmatória, devemos passar ao estádio seguinte, em que somos capazes de discernir os ingredientes que fazem a singularidade de um pedaço de natureza. É enriquecedor saber que os fetos da mágica laurissilva madeirense são, em grande parte, diferentes dos que vemos noutras paragens, e que alguns deles só existem na Madeira.

Juntando-se à Arachniodes webbiana e ao Polystichum falcinellum, a Dryopteris aitoniana é o terceiro feto habitante da laurissilva e endémico da Madeira que aqui apresentamos (um quarto feto endémico, Ceterach lolegnamense, é de pequeno tamanho e prefere os muros soalheiros do sul da ilha à humidade umbrosa da laurissilva). A sua filiação no género Dryopteris é denunciada pelos indúsios reniformes que protegem os esporângios (compare a última foto em cima com esta ou esta). De resto, o formato geral das frondes, o seu tamanho (até 120 cm de comprimento) e a sua disposição em tufos pouco ajudam a diferenciá-la das suas congéneres. Na Madeira ocorrem três espécies adicionais de Dryopteris, todas elas frequentes na laurissilva e até em plantações florestais: D. aemula, D. affinis subsp. affinis e D. maderensis (esta última quase sósia da D. azorica). Se atendermos ao recorte das pínulas (divisão de segunda ordem das folhas), muito mais pronunciado na D. aemula e na D. maderensis, só com a D. affinis se pode a D. aitoniana razoavelmente confundir; e aí as pínulas basais, em regra bastante compridas na D. aitoniana (5.ª foto acima) e muito curtas na D. affinis (veja aqui), ajudam a dissipar as últimas dúvidas. Além disso, a D. aitoniana apresenta folhas mais rígidas e de um verde mais pálido, e tem poucas escamanas na ráquis. Ao segundo dia das nossas deambulações pelas levadas madeirenses já a reconhecíamos ao longe.

Calcula-se em 38 o número de espécies (e subespécies) de Dryopteris que ocorrem na Europa, na zona mediterrânica e na Macaronésia. Estão ligadas por uma complexa teia de relações familiares que têm na hibridação e poliploidia a sua principal génese. Daí que a diferenciação entre taxa ou a sua própria delimitação não sejam assuntos simples. A D. aitoniana tem fortes semelhanças com a Dryopteris oligodonta, endémica das Canárias, motivo para algumas listagens reportarem a presença de uma ou de outra no arquipélago errado.

Falta explicar por que razão o nome do feto madeirense homenageia o primeiro director dos Kew Gardens, William Aiton (1731–1793), que nunca pôs os pés na Madeira nem, que se saiba, alguma vez saiu da Grã-Bretanha. Aiton foi o autor de um Hortus Kewensis (1789) descrevendo 5600 plantas cultivadas em Kew e originárias de muitas partes do mundo. Para muitas dessas espécies, Aiton foi o primeiro a dar-lhes nome científico. Sob o nome, que hoje nos parece absurdo, de Polypodium elongatum, o feto madeirense aparece na pág. 465 do vol. 3 dessa obra. Pelo menos supõe-se que é esse o feto que se pretendia nomear, embora a descrição seja demasiado abreviada e se diga erradamente que ele ocorre também nos Açores. O italiano Rodolfo Pichi-Sermolli, que em 1951 reconheceu a validade da espécie e a transferiu para o género Dryopteris, não pôde conservar o epíteto elongata por ele já ter sido usado noutra espécie do género, e optou pelo epíteto aitoniana para assim registar a prioridade de Aiton.

5.4.17

Leitugas ao vento

Aos lusitanos, habituados a manter as costas protegidas pelo resto da Península Ibérica, incomodam à vez vários ventos, sejam os de oeste, salpicados de água e maresia, os vindos de Espanha, secos e tórridos no Verão, as ventanias densas de areia do norte de África ou as aragens frias que sopram da Galiza. Na meia idade, basta que uma leve brisa de algum destes quadrantes nos desarranje o penteado para nos doerem os ossos. Anos depois, nenhuma gelosia se entreabrirá sem que soe o alerta de arrepios fatais. Com uma tal experiência e sabedoria eólicas, somos os primeiros a dar razão a muitas plantas que se recusam a colonizar parte da costa da Madeira, ou às que, resignadas a suportar os inevitáveis rigores climáticos a meio do Atlântico, ali mudam de forma e de feitio.

Poderá ter sido a necessidade de adaptação a vários habitats severos a origem de tantos endemismos da ilha da Madeira no género Sonchus. Os que hoje aqui se mostram florescem no Outono e Inverno, por isso em Dezembro encontrámos ainda flores viçosas. Apresentam poucas semelhanças com as espécies deste género que conhecemos na Península Ibérica, sem espinhos, penugem ou folhagem rugosa.


Sonchus ustulatus Lowe subsp. ustulatus





Sonchus ustulatus Lowe subsp. maderensis Aldridge



Estas são herbáceas perenes com uma só haste floral em cuja ponta balança uma cimeira de inflorescências amarelas. O aspecto mais bonito é, porém, a folhagem em roseta, tendo uma delas folhas carnudas e penatissectas, de lobos lanceolados e dentados, e a outra lobos laterais ovados ou rômbicos, por vezes sobrepostos, e de margens quase inteiras. Vivem em locais rochosos da costa: o S. ustulatus subsp. maderensis, descrito em 1976 e que também ocorre em Porto Santo e Desertas, precisa da humidade da costa norte da ilha da Madeira; o S. ustulatus subsp. ustulatus, que Lowe nomeou em 1831, prefere nichos secos e soalheiros da costa sul.

Sem abrigo que lhes valha, não se estranha o porte rasteiro de ambos, nenhum se elevando além dos 50 cm. Ficam, claro, muito aquém dos 2 metros de altura que pode atingir o S. pinnnatus (outro endemismo da ilha da Madeira, que ocorre em escarpas de montanha) ou dos 4 metros a que ascende o S. fruticosus (mais um endemismo, comum em ravinas e recantos húmidos de laurissilva no interior da ilha). Apresentam, parece-nos, algumas semelhanças com Sonchus da costa do norte de África, como o S. masguindalii ou o S. pustulatus, este de rochedos calcários costeiros de que se conhecem também populações em Almería, Espanha.

28.3.17

Madeira Fern Fest (6)


Polypodium macaronesicum A. E. Bobrov subsp. macaronesicum



Com a sua forma simples e simétrica, que poderia ter sido rabiscada por uma criança, os polipódios são dos fetos mais comuns e mais simpáticos. Gostam da humidade e do tempo fresco, e por isso as suas folhas secam e desaparecem lá por meados de Abril, regressando com as chuvas de Outono. O seu calendário é o oposto do das árvores de folha caduca onde costumam empoleirar-se, com o admirável resultado de fornecerem a cabeleira postiça exactamente quando as árvores precisam dela. Além de enfeitarem a nudez das árvores, também são vistos em muros e em telhados. Às vezes descem até ao chão e despontam à sombra das árvores, outras vezes instalam-se em depressões dunares, com a maresia suprindo aquele grau de humidade que lhes é indispensável.

Embora a distinção entre eles possa ser subtil, há em Portugal continental três espécies de Polypodium. Não têm todos a mesma fenologia, e de facto o desaparecimento estival é mais característico do P. cambricum, que surge a baixas altitudes de norte a sul do país, mas com particular incidência na metade oeste. O P. vulgare, característico de bosques em zonas montanhosas e restrito ao norte e centro, pode manter-se viçoso durante quase todo o ano. A diferença entre os dois é notória: o P. cambricum tem as folhas bastante largas, enquanto que o P. vulgare as tem estreitas. Mas a terceira espécie vem dificultar as coisas: o P. interjectum é, em quase tudo, a média aritmética dos outros dois, e não é surpresa saber que resultou deles por hibridação e poliploidia.

Se rumarmos aos Açores ou à Madeira, mudam as árvores e mudam os muros, mas os polipódios não mudam assim tanto. A julgar pelas fotos que ilustram este texto, as duas primeiras tiradas no Porto Santo e as restantes na Madeira, o polipódio dessas ilhas assemelha-se muito, até na dessecação estival, ao P. cambricum do continente. O mesmo sucede nos Açores, como se pode ajuizar pelas fotos nesta página. Há contudo diferenças morfológicas, algumas delas microscópicas, entre os polipódios insulares e os continentais, motivo para em 1964 os polipódios macaronésios terem sido emancipados numa espécie autónoma. Estudos moleculares posteriores confirmaram a separação, estabelecendo ainda que o o P. cambricum e o P. macaronesicum pertencem à mesma linhagem, diferenciando-se por umas tantas mutações genéticas.

O nome Macaronésia sugere uma uniformidade de clima e de vegetação que anda longe de ser real. O polipódio ocorre nos Açores, Madeira e Canárias, mas será o mesmo nos três arquipélagos? Nos Açores as suas folhas têm uma textura mais coriácea, e as tentativas de hibridação (realizadas em 1996 pelo botânico R. Neuroth) do polipódio açoriano com o P. macaronesicum da Madeira e das Canárias, e com o P. cambricum do continente, falharam todas (por contraste, os dois últimos hibridaram sem dificuldade). Isso justificou a opção de alguns autores, que consideraram o polipódio açoriano como pertencente a uma terceira espécie, endémica do arquipélago.

Um artigo de 2014 de Fred Rumsey et al., intitulado Taxonomic uncertainty and a continental conundrum: Polypodium macaronesicum reassessed, veio pôr ordem no assunto. Os autores descrevem a genealogia do polipódio insular e, depois de um estudo exaustivo, reconhecem nele duas estirpes, uma na Madeira e nas Canárias, a outra nos Açores. As diferenças genéticas e morfológicas são suficientes para distinguir duas subespécies, mas não duas espécies, e por isso o P. azoricum é despromovido a P. macaronesicum subsp. azoricum. Em todo o caso, pertencendo o P. macaronesicum à mesma linha evolutiva do P. cambricum, e existindo nas ilhas uma maior diversidade genética nessa linhagem do que no continente europeu, os autores sublinham que não é de descartar a hipótese (que só outro estudo poderá confirmar ou desmentir) de o P. cambricum descender da variante insular, em vez de se verificar a hipótese contrária (e aliás mais plausível).

21.3.17

Farrobo & ensaião

Se houvesse que escolher uma planta frequente na Madeira para constar de um postal turístico no lugar das próteas sul-africanas que se vendem em lojas de souvenirs no aeroporto, poderíamos escolher uma das duas espécies de Aeonium que são endémicas do arquipélago da Madeira. De facto, não parece haver fissura de rocha, escarpa ou ravina, do litoral até às maiores altitudes, que não acolha uma dessas plantas; e, no Verão, as suas inflorescências amplas, ramosas e cheias de flores com pétalas amarelo-douradas são um regalo para quem visita a ilha.



Aeonium glutinosum (Aiton) Webb & Berthel.



Dir-se-ia que a vida espalmada numa rocha é arriscada, sujeita a ventanias, tempestades e deslizes, mas estas suculentas superaram há muito estes perigos. O género Aeonium parece mesmo apreciar este tipo de habitats nas ilhas Canárias (onde há mais de vinte e cinco espécies), em Marrocos e na parte leste de África. São plantas de base lenhosa mas de caule curto que, no caso do A. glandulosum (dito ensaião de pasta) só se vê se, com algum esforço, levantarmos a roseta de folhas colada à rocha. Ao espreitarmos, notamos ainda como as folhas são penugentas e de margens ciliadas, e como exalam um agradável aroma a bálsamo. O A. glutinosum (a que também chamam farrobo) é subarbustivo e muito viscoso, podendo o conjunto roseta & inflorescência chegar a um metro de altura.



A disposição das folhas, imbricadas como telhas de um telhado (ou um saião da Nazaré), ajuda a evitar que demasiada água se acumule no centro das rosetas de onde emerge a panícula de flores. Pelo contrário, em situação de seca extrema, algumas espécies conseguem fechar a roseta de folhas, preservando desse modo alguma humidade. As duas espécies madeirenses são bienais ou perenes, mas cada planta floresce uma só vez, restando então a roseta de folhas que se vai bronzeando ao sol forte, tingindo-se por vezes de um tom de lava incandescente.


Aeonium glandulosum (Aiton) Webb & Berthel.

14.3.17

Madeira Fern Fest (5)



Ceterach lolegnamense Gibby & Lovis [= Asplenium lolegnamense (Gibby & Lovis) Viane]



Passeando pelas íngremes estradas em redor do Funchal, o naturalista amador encontra aqui e ali, aninhado nas fendas dos muros, um feto que lembra irresistivelmente um seu velho conhecido. Pergunta-se então se a douradinha, que no continente enfeita calcários e xistos, também terá cruzado o oceano para se instalar no basalto das ilhas. Só se o tiver feito na Madeira, pois, se bem se lembra, nos Açores ela nunca foi vista. Mas a verdade é que nem na Madeira ela conseguiu poiso. A douradinha-da-Madeira (nas fotos) é aparentada com a continental (é neta desta), mas não é a mesma coisa, distinguindo-se tanto pelo número cromossómico (hexaplóide a primeira, tetraplóide a segunda), como, à vista desarmada, pela maior envergandura das frondes e pelas pinas mais compridas, amiúde quase triangulares. Se os soros estiverem maduros, podemos notar, revirando as folhas, que no Ceterach lolegnamense (a espécie madeirense) eles se dispõem ordenadamente em duas fiadas paralelas, uma em cada metade da pina (3.ª foto em cima e última foto nesta página), enquanto que no Ceterach officinarum a arrumação é menos simétrica (fotos aqui).

Pouca necessidade haverá, no terreno, de pôr em prática estes ensinamentos: na Madeira só ocorre o Ceterach lolegnamense, que aliás é endémico da ilha, no continente só há Ceterach officinarum, e assim nenhuma confusão é possível. Mas se um descende do outro, não terão eles, há uns tantos milhões de anos, coexistido em algum lugar do planeta? Provavelmente sim, e a resposta passa pelo arquipélago das Canárias. Essas ilhas espanholas 450 Km a sul da Madeira dispõem de várias versões da douradinha, entre elas as duas espécies, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, cujo cruzamento terá dado origem ao Ceterach lolegnamense.

O Ceterach aureum, como aqui se pode ver, apresenta, quando bem desenvolvido, frondes bastante mais largas do que as do Ceterach officinarum. Já o também canarino Ceterach octoploideum é, na prática, indistinguível a olho nu do C. officinarum. A combinação dos dois levou a que o Ceterach lolegnamense assumisse características intermédias. Depois de gerado, não logrou sobreviver na sua ilha natal, migrando contudo para norte através de esporos trazidos pelo vento ou agarrados às patas de alguma ave. Fintou a esterilidade que persegue todos os híbridos recorrendo à apomixia, o que significa que os gametófitos do C. lolegnamense não precisam de ser fecundados para originarem um novo indivíduo.

Até 1989, ano em que os botânicos Mary Gibby e J.D. Lovis publicaram no n.º 13 da Fern Gazette um artigo sobre o Ceterach madeirense, pensou-se que ele era idêntico ao C. aureum, tido então como o único do seu género nas ilhas Canárias. Sabe-se hoje que afinal existem lá três: aos endémicos canarinos C. aureum e C. octoploideum soma-se, para ajudar à confusão, o verdadeiro C. officinarum. A história, cheia de reviravoltas, suspense e algum sexo, é contada num artigo de 2006 com o título Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta).

8.3.17

Outros modos de ser gilbardeira

As directivas europeias, em boa hora aprovadas, sobre preservação de habitats naturais e respectivas fauna e flora silvestres, obrigam a União Europeia a um genuíno esforço de protecção, valendo-se de uma rede de sítios classificados e de um conjunto de leis de conservação abrangentes e com prazos curtos para implementação nos países membros. Contudo, o carácter global de tais medidas nem sempre está afinado com as ameaças e vulnerabilidades de cada território europeu em particular. Um exemplo deste desajuste é a ausência na lista de espécies ameaçadas, e nos vários anexos das Directivas Habitats, do Centaurium chloodes, de que, em anos recentes, só há registo em Portugal de uma população. Pelo contrário, incluem o Ruscus aculeatus (igualmente presente na lista vermelha da IUCN) que em Portugal tem uma distribuição ampla, ainda que sejam escassos os bosques de carvalhos, sobreiros ou azinheiras que se supõe serem (também) da sua predilecção.


Ruscus streptophyllus Yeo



Falemos, porém, de Ruscus, um género de origem mediterrânica que exibe uma notável adaptação a ambientes onde o risco de seca é elevado. Em vez de folhas, um luxo a que as plantas de regiões áridas não podem aspirar, a gilbardeira tem apenas uma boa ideia do que é uma folha. Baseada nesse conceito, modifica os talos, achatando-os, e obtém algo que realiza a fotossíntese como uma vulgar folha verde e se parece tanto com ela que um incauto nem desconfia do truque. Claro que uma tal mentirinha haveria de ser descoberta mais tarde ou mais cedo, e são as flores as delatoras. Apesar de serem inconspícuas, nascendo uma de cada vez e durando poucos dias, certo é que as flores brotam no meio da face inferior ou superior destas falsas folhas (ditas cladódios), revelando que se trata afinal de uma haste (ou pecíolo) a fingir de folha.

Das sete espécies do género, Ruscus aculeatus é a única nativa de Portugal continental. É um arbusto perene e, em geral, dióico, que exibe talos erectos, muito ramificados e lenhosos, e cladódios rijos, com um espinho no ápice. No Inverno, enfeita-se com chamativas bagas vermelhas como o azevinho. Tem virtudes medicinais (que, em algumas regiões europeias quase o deixaram à beira da extinção, o que explica a sua inclusão do Anexo V da Directiva Habitats) e talento ornamental que baste (que lhe tem valido lugar em muitos jardins).

Em alguns matos com sombra e solo calcário de Espanha ocorre outra espécie de Ruscus também de distribuição mediterrânica, R. hypophyllum, que, apesar do epíteto específico, nem sempre tem as inflorescências na face inferior do cladódio. Não é tão ramificado como a gilbardeira, os cladódios são maiores e mais flácidos, sem o bico aguçado na ponta, as inflorescências mais floridas e as flores com um pedicelo muito mais longo que faz com que as bagas pareçam cerejas. O seu carácter monóico está ainda em discussão entre os especialistas.

Na ilha da Madeira há registo de outra espécie, talvez com um progenitor comum aos Ruscus europeus, o R. streptophyllus. É um endemismo raro que vive em locais rochosos, sombrios e húmidos da laurissilva. Tal como no R. hypophyllum, os cladódios são grandes com pedúnculos longos e arqueados, e dispõem-se quase horizontalmente nos caules pendentes. Não é um arbusto ramificado, as flores nascem sempre na face inferior dos cladódios, e é fielmente monóica. É a única espécie do género Ruscus que tem verdadeiras folhas, embora apenas nas plantas recém-nascidas.

Na vizinhança deste Ruscus madeirense, e tão rara como ele, pode encontrar-se uma trepadeira (da Madeira e Canárias) que pode atingir os sete metros e cujas falsas folhas lembram as dos Ruscus. A Semele androgyna, que Lineu designou Ruscus androgyna, distingue-se deles porque as suas flores nascem nas margens dos cladódios.

Semele androgyna (L.) Kunth

28.2.17

Madeira Fern Fest (4)


Notholaena marantae subsp. subcordata (Sw.) C. Presl



Abandonando por momentos os ambientes húmidos do interior da ilha, descemos à soalheira costa sul da Madeira. Embora o senso comum associe os fetos à presença da água, a verdade é que, na Madeira como em toda a parte, também os há em lugares secos, aproveitando as bolsas de solo nos interstícios das rochas ou de velhos muros de basalto. Esses fetos xerófitos, com uma apetência quase suicida pela luz solar, têm porém uma fraqueza, que é o de se encarquilharem todos na estação seca. Mostram-se de peito feito para enfrentar o sol, mas encolhem-se quando o sol escalda. O seu seguro de vida é a capacidade de reverdecerem com o regresso da humidade: as folhas amarfanhadas, na aparência totalmente secas, têm uma capacidade de regeneração de fazer inveja a Cristo ressuscitado. (Veja-se nesta página a extraordinária recuperação de uma douradinha - Asplenium ceterach - em apenas 24 horas.)

Graças a essa vulnerabilidade que é sobretudo uma forma de defesa, os fetos xerófitos no continente só costumam observar-se em boas condições na metade mais fresca do ano. Na Madeira, apesar de situada mais a sul, o efeito temperador do oceano faz com que a estação quente não seja tão extremada. E as plantas que vivem frente ao mar, como o feto que hoje apresentamos, beneficiam diariamente de um suplemento de humidade trazido pela neblina. Para quem sobrevive com tão pouca água, essa condensação pode bastar para que as folhas (ou boa parte delas) se mantenham verdes mesmo no Verão. Apesar de o termos fotografado em Dezembro, é provável que este feto não estivesse menos fotogénico no pico de Agosto.

A Notholaena marantae distribui-se por todos os países do sul da Europa, no norte de África fica-se por Marrocos, e alcança ainda a Turquia, os Himalaias e o Iémen. Também ocorre no arquipélago das Canárias e na ilha da Madeira, mas sob uma forma peculiar (subespécie subcordata), que se distingue da forma continental (subsp. marantae) pelo maior tamanho das frondes, e pelo maior número de pinas e de pínulas em cada pina. (Nas fotos acima, em especial na terceira, o leitor pode verificar que as pinas têm amiúde 9 ou 10 pares de pínulas, enquanto que na N. marantae do continente - veja aqui ou aqui - têm no máximo 5 ou 6.) De resto, ambas as subespécies têm a face inferior das pinas revestidas por escamas arruivadas e a face superior lustrosa, como que envernizada. Quanto ao tamanho, as frondes da subsp. subcordata podem chegar aos 45 cm de comprimento, mas as da subespécie marantae não ultrapassam os 35 cm.

Outra coisa em que as duas subespécies divergem é na ecologia. No continente não existem as rochas basálticas, ou os muros do mesmo material, onde se acolhe o feto madeirense. Mesmo que existissem, é improvável que servissem de morada à N. marantae subsp. marantae, reconhecidamente picuinhas na escolha de habitat: em Portugal (e, com raras excepções, ao longo de toda a sua distribuição europeia) só lhe servem os afloramentos ultrabásicos, o que limita a sua presença por cá a uns escassos lugares em Trás-os-Montes. Em contraste, como na ilha o que não falta é basalto, a N. marantae subsp. subcordata dispõe na Madeira de inúmeros possíveis habitats. É fácil de encontrar na costa sudoeste, nos muros ladeando as veredas íngremes que eram a única ligação entre os povoados antes de se rasgarem as modernas estradas.